Ein Verbrecher (um criminoso)

Pequeno texto ficcional sobre um Verbrecher (criminoso em alemão):

In der Nacht war ich in meinem Schlafzimmer und ich habe Lärm gehört. Dann bin ich zum Fenster gelaufen und da habe ich einen Mann gesehen. Er hat von meinem Nachbarn das Fahrrad gestohlen. Danach habe ich die Polizei angerufen. Zum Glück ist nichts mit meinem Nachbarn passiert. Leider konnte die Polizei das Fahrrad nicht finden. Am Schluss haben wir Überwachungskameras installiert und jetzt fühlen wir uns sicherer.

Tradução:

Estava no meu quarto à noite e ouvi um barulho. Então, corri para a janela e lá eu vi um homem. Ele roubou a bicicleta do meu vizinho. Então eu chamei a polícia. Por sorte, nada aconteceu com meu vizinho. Infelizmente, a polícia não conseguiu encontrar a bicicleta. No final, nós instalamos câmeras de segurança e agora nos sentimos mais seguros.

Konversationsklub

Em janeiro vou fazer o Konversationsklub. Nele, os alunos podem participar de pequenos grupos de discussão para prática de conversação em alemão.

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A minha aula vai ser toda sexta-feira às 9:00 da manhã.

Viagem

Falar sobre assuntos que não dominamos deveria ser mais difícil, teoricamente. Ao passo que assuntos em que temos completo domínio deveriam ser mais fáceis. Mas a realidade não costuma se dar bem com a teoria.

Quanto mais conhecemos sobre um assunto, mais temos a capacidade de relativizar e criar contrapontos para qualquer linha de argumentação. É possível dizer que, ao dominar um determinado tema, somos capazes de defender ou atacar qualquer ponto de vista. Temos razões suficientes para concordar ou discordar de qualquer afirmação.

Por isso, falar sobre viajar é um tema um pouco arenoso para mim. Minha experiência me diz que posso falar confortavelmente sobre o assunto, mas ao mesmo tempo me diz que tenho muito mais a aprender. Posso concordar sobre quase tudo que já foi escrito sobre o assunto, assim como posso discordar de quase tudo.

A verdade é que nasci viajando. Sou filho de pais cariocas, mas nasci na Bahia. Sou turista na cidade em que nasci. Fui criado no Rio de Janeiro dos anos 90, e hoje me sinto um pouco deslocado quando visito o Rio. A cidade evolui constantemente no caos. Morei dois anos e meio em Santa Catarina e nove anos em Curitiba. Neste meio tempo visitei dezenas de países, passei uma temporada nos Estados Unidos, um mês de França e agora estou há quase 4 meses na Alemanha.

Aos quinze anos saí do país pela primeira vez. Fui para o Chile. Aquela viagem me marcou pela experiência de estar pela primeira vez sozinho em um lugar estranho. Supostamente, eu deveria ter feito uma excursão de esqui em Valle Nevado. Na realidade, vi o meu guia de viagem no dia em que chegamos no Chile e no dia que fomos embora. Durante sete dias, aprendi a esquiar, saltei de asa-delta e me aventurei pela vida noturna de Santiago.

Aos vinte anos partiria para a grande viagem da minha vida: um intercâmbio de trabalho em uma estação de esqui na Califórnia. Foram quatro meses trabalhando em uma loja de aluguel de esquis. Lá conheci minha esposa, conheci melhor a cultura americana, aperfeiçoei a língua inglesa e pude curtir o inverno esquiando em um lugar paradisíaco.

Ao fim do intercâmbio, por sugestão da Sarah, resolvi fazer um mochilão pela Europa. Foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. Naquele período, senti de fato a solidão e as incertezas da juventude. Enquanto conhecia aqueles países fantásticos, tive tempo para refletir e pensar sobre a vida. Lembro de andar de madrugada por Bruxelas depois de passar a noite conversando com um barman romeno. Ou quando fui por três dias seguidos em um show de improvisação em um teatro de Amsterdam. Cada dia daquela viagem foi especial e ainda lembro de cada detalhe.

Aos vinte e cinco anos, faria mais uma viagem inesquecível pela Europa.  Desta vez com a minha noiva. Passamos um mês em Grenoble, uma cidade universitária na França. Conheci uma França completamente diferente daquela que tinha visitado quatro anos antes. Ao passar um mês em uma cidade, você começa a entender um pouco da cultura e do dia-a-dia. O fato de entender o idioma também foi fundamental para compreender melhor o país. Mas o que fez esta viagem especialmente divertida foi o orçamento. Quando decidimos rodar a Europa em 2006, a grana estava bem curta e nosso orçamento só dava para um albergue e um pão com queijo. Além de perder mais de dez quilos em dois meses, a gente ainda se divertia procurando comida barata em cidades caras, como Genebra. No final, voltamos ao Brasil com o know-how de como viajar sem dinheiro.

Em 2009, voltamos a Europa em uma viagem mais confortável, ficando em hotel e experimentando a gastronomia de cada país. Em 2010, fizemos uma viagem de luxo pelos Estados Unidos em que eu aluguei um Camaro vermelho e viajei mais de 2.000 quilômetros pela costa leste. Em 2011, fomos para a Austrália e Nova Zelândia e passamos o Ano Novo na Opera House em Sydney.

Em 2013, fiz a viagem mais surpreendente da minha vida. Conhecemos a Ásia. Em cada país que chegávamos, ficava maravilhado. O atmosfera de Bangkok é indescritível e o ritmo é simplesmente enlouquecedor. Em Cingapura conhecemos a materialização do planejamento perfeito. Em Hong Kong, me senti em uma Nova Iorque de 2025. A cada cidade me surpreendia mais. Macau com seus cassinos e Kuala Lumpur com sua mistura de civilizações. As lindas praias da Tailândia me obrigaram a rever o conceito de paraíso. Mas foi no Vietnã que eu descobri um universo paralelo, onde as pessoas ainda vivem uma vida simples e encontram a felicidade nas pequenas coisas.

Entre uma viagem e outra ainda encontramos tempo para voltar aos Estados Unidos e visitar outros países mais próximos, como a Colômbia. A Colômbia foi uma surpresa extremamente agradável. Um país rico, bonito e com um grande potencial turístico.

Em 2014 fizemos nossa viagem para a Coreia do Sul e Japão. Nessa viagem, descobrimos porque a Coreia é o país que possui o maior número de marcas em evidência mundialmente. Um país que tem Hyundai, Kia, Samsung, LG e outras marcas merece uma visita. O Japão, por outro lado, é o retrato de um civilização que já atingiu o seu ápice e que agora vive um lento e confortável declínio. Ainda sim, a mentalidade japonesa merece um estudo detalhado. Eles são um exemplo de dedicação, organização e foco (e se assemelham muito aos alemães nesses sentido).

Passei o Réveillon de 2015 no Deserto do Atacama. O Chile é um exemplo do potencial da América do Sul. Um país que está 100 ou 200 anos a frente do Brasil, mesmo sendo o país mais estreito do mundo. Ao atravessar a fronteira com a Bolívia, tive a oportunidade de conhecer a natureza na sua forma mais bruta. Gêiseres, vulcões em atividade e um interminável deserto de sal. Como ficar indiferente perante a força da natureza? Vivemos em um planeta realmente fantástico!

Entre uma viagem a Las Vegas, um jantar em Hanói, um hotel de sal na Bolívia e, mais recentemente, uma escalada pela montanha de Huyana Picchu, em Machu Picchu, comecei a pensar sobre o conceito de viagem. Afinal de contas, o que é viajar? O que eu aprendi, por exemplo, durante o dia que passei na Bratislava, capital da Eslováquia? Será que eu conheço, de fato, a Eslováquia? É claro que não.

E nesse sentido, a experiência de estar há quase quatro meses em Berlim, me faz pensar na minha primeira visita de cinco dias pela cidade. Quando visitei a capital da Alemanha em 2009, pude conhecer as avenidas amplas, o peso da História, a organização e a eficiência alemã. Mas só depois de três meses aqui, entendo o espírito avant-garde da cidade e a fixação alemã pela burocracia. O mundo do alemão é um quadrado firmemente delimitado por certezas absolutas. E uma dessas certezas é de que o alemão sabe o que é melhor para ele e para a sociedade. Por este motivo, discordar de um alemão é uma das tarefas mais exaustivas que um ser humano pode experimentar. Eles tem certeza absoluta de tudo e discordam de qualquer opinião diferente. Ponto.

Mas o assunto deste post é viagem. Vale a pena ficar 5 dias em cada lugar ao longo de um ano e conhecer 70 países ao longo de um ano? Esta resposta eu tenho na ponta da língua: não. Muita gente visita 30 ou 40 países ao longo de um ano, o que significa ficar 10 dias em cada lugar. É válido? Sim, tudo é válido. Mas para conhecer um país de fato, você precisa de mais tempo. Talvez seis meses, partindo do princípio que você fala o idioma local. Mas o que fazer então? Uma pessoa precisaria de 50 anos para conhecer 100 países nesse ritmo.

Para sair deste dilema insuperável, uma das alternativas é dedicar 6 meses para cada região. Por exemplo, 6 meses no sudeste asiático, 6 meses na Oceania, 6 meses na África, 6 meses na América do Sul, 6 meses na América do Norte, 6 meses no Oriente Médio, 6 meses na Ásia, 6 meses na Europa Ocidental, 6 meses no leste europeu e 6 meses na América Central. Neste modelo de viagem, seriam necessários 5 anos para conhecer o mundo. Um pouco mais factível.

Mas a pergunta que se faz agora é: por que conhecer o mundo? O que há de tão interessante longe de casa? O mundo é como um museu vivo. É como entrar no Louvre e não ficar com vontade de passar 3 meses lá dentro. A vida é esse grande passeio e que, nesse momento, nos dá a oportunidade de conhecer este planetinha em que nascemos. Quem sabe no futuro não poderemos explorar outros planetas e galáxias com a mesma facilidade que viajamos de avião hoje?

Entender esta corrida desesperada da humanidade rumo ao nada é uma experiência alucinante. Somos 7 bilhões de lemmings perseguindo a sobrevivência e a perpetuação da espécie. Seres movidos pelo instinto que se consideram de alguma forma superiores pela capacidade raciocínio. E quanto mais viajamos menos certezas temos e mais vontade de conhecer novos lugares temos.

A tecnologia facilita muito o mundo do viajante. Serviços como o Airbnb permitem que o turista viva na casa de alguém por alguns dias e interaja mais com a realidade local. Fazer compras no supermercado, estudar, trabalhar, ver TV, ler o jornal, andar pela rua – isto constitui uma experiência completa em um país. Visitar pontos turísticos e tirar fotos é como olhar pelo buraco da fechadura. Somos meras testemunhas do que está acontecendo atrás daquela porta.

Viajar é como fazer uma tatuagem na mente. A cabeça fica marcada por aquela experiência. É como ler e escrever um livro ao mesmo tempo. E aprender um novo idioma, faz com que se descubra uma maneira completamente nova de pensar também. Todas as certezas vão sumindo e o mundo vai ficando cada vez mais interessante.

7×1 no Natal também 

Fomos na feirinha de Natal e pela milésima vez fomos zoados por um alemão quando ele descobriu nossa nacionalidade. Enquanto mencionava a alegria proporcionada pelo Brasil no 7×1, a maior desde a queda do muro de Berlim, segundo ele, outro alemão cantava e dançava uma versão obscura do grito de “É campeão!”.

Toda a seriedade do alemão vai embora quando ele está bebendo e comendo na rua. É a verdadeira paixão do alemão. E quando o assunto é futebol, nada deixa o alemão mais eufórico do que a lembrança do goleada no Brasil.

Uma coisa é certa: o Natal é muito mais celebrado do que a Oktoberfest em Berlim. As feiras de Natal vivem lotadas e as pessoas parecem se divertir como crianças.

O alemão tem o hábito de comprar uma árvore de Natal de verdade (um pinheirinho) para decorar em casa. Porém, a árvore só é montada no dia 24 e faz parte da surpresa para as crianças. As árvores são vendidas nas praças da cidade e são embaladas em uma rede para proteger os galhos. O preço varia entre €20 e €70, dependendo do tamanho. Não me parece muito ecológico já que o pinheiro é cortado sem raiz e não é colocado em vaso nem nada. Depois de 2 semanas, ele vai para o lixo.

Jeitinho brasileiro

Estava passeando pela Internet quando encontrei um vídeo de um historiador chamado Leandro Karnal. Nunca tinha ouvido falar deste senhor, mas o tema do vídeo me chamou atenção: o jeitinho brasileiro.

No vídeo, o historiador explica que o jeitinho brasileiro é uma maneira de negociar as regras. “É como a lei do Rei, que todos acatam, mas ninguém obedece.” E um dos símbolos mais contundentes do jeitinho é o diminutivo. É o “só mais um pouquinho”, o “rapidinho” e o  próprio “jeitinho”. E ele compara o jeitinho brasileiro como uma constante negociação das regras em contraponto à sociedade organizada europeia como um lugar com pouca liberdade individual.

Em um momento brilhante, ele conclui como o jeitinho e a organização se diferenciam. Diz ele: ” Com o jeitinho brasileiro prevalece o indivíduo sobre o grupo e na organização prevalece o grupo sobre o indivíduo.” E é exatamente como vejo a vida aqui na Europa. A sociedade funciona bem e dentro dela nos sentimos respeitados e satisfeitos. Porém, não existe espaço para espontaneidade ou grandes desvios para o bem e para o mal.

Continuei lendo sobre o assunto em outros sites e encontrei alguns dados que demonstram como as sociedades mais avançadas possuem maiores índices de suicídio.  Em uma sociedade organizada em que tudo funciona, o peso da infelicidade pessoal diante da satisfação coletiva é muito mais forte. Todos os motivos para a infelicidade recaem na vida pessoal e ao comparar o nível de sucesso da sociedade, as pessoas se sentem muito fracas e sozinhas.

Resumindo os dois pontos levantados acima, podemos dizer que o indivíduo alcança maiores índices de felicidade no caos, assim como se sente menos pressionado em um ambiente hostil. Se o brasileiro consegue ser feliz com toda a violência, corrupção e desorganização, ele se sente um herói. Se o europeu se sente infeliz mesmo com o Estado provendo saúde, educação, cultura, transporte e até mesmo incentivo financeiro, ele é um desastre de ser humano e deveria se matar.

E aí entra um ponto levantado pelo historiador em outro texto que encontrei na Internet. Leandro diz que dentre as suas preferências na história da humanidade estão os Estados Unidos: “Eu tenho um profundo interesse na sociedade norte-americana, nas suas contradições, na sua cultura, que produziu uma cultura mundial para o bem e para o mal. Problemas e soluções absolutamente interessantes”.

Os EUA encontraram o perfeito equilíbrio entre o caos e a organização. Ao valorizar a cultura da não-inteligência, o herói Forrest Gump, o fast-food e Hollywood eles conseguiram eliminar a seriedade europeia sem cair na terra sem-lei. Uma sociedade que se considera a melhor do mundo, mas sabe rir dela mesmo como ninguém.

A Alemanha é o ápice da organização europeia e, quiçá, mundial. Berlim é a capital e também a cidade menos alemã do país. Esta falta de seriedade do berlinense é uma luz no fim do túnel para a Europa e para o mundo. O modelo americano funcionou muito bem no século XX, mas talvez o berlinense tenha a receita para a sociedade perfeita do século XXI.

Para isso, a receita está em aumentar cada vez mais a mistura de culturas e backgrounds, deixando a cidade cada vez mais atrativa para os imigrantes. É possível ver o grau de desenvolvimento de uma cidade pela quantidade de pessoas de fora que ela atrai. Assim foi com o Rio de Janeiro até a década de 70 e assim é com São Paulo hoje em dia. O mesmo serve para Nova Iorque, Londres ou Paris.

Bagunçar um pouco a Alemanha é um desafio possível. Agora me pergunto: seria possível deixar o Brasil um pouco mais sério? Não, seremos para sempre o país do futuro. A Lei de Gerson está no nosso sangue. O Brasil vai continuar sendo o país com as pessoas mais felizes do mundo com a sociedade mais fracassada da humanidade.

Dolores Burritos

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Como qualquer cidade cosmopolita, é possível encontrar qualquer tipo de comida em Berlim. Quando o assunto é porco e batata, os alemães sabem o que estão fazendo. Quando foge disso, é melhor confiar em mãos estrangeiras.

Depois de duas semanas passando em frente do Dolores Burritos, tomei coragem e entrei. O lugar é bem decorado e oferece uma enorme variedade de pratos mexicanos. Os preços são bem razoáveis, com burritos a partir de €4,50.

A comida é muito saborosa e lembra muito o sabor da comida mexicana que eu conheci na Califórnia. O arroz com um toque de limão e molho levemente picante deixam a comida ainda mais autêntica, lembrando o mundialmente famoso Chipotle. Pedi um Naughty Pork, com uma deliciosa carnita asada.

E assim, tenho mais um lugar para comer bem e barato em Berlim, quando estou na rua. O Dolores junta-se ao Mustafa’s, Bat Viet, Burgermeister, Gusto Giusto, entre outros.

Winter is coming

  
Hoje a caminhada foi feita sob neblina. A temperatura caiu para -1°C e a grama congelou. A máxima de hoje é 4°C, mas a temperatura deve subir ao longo da semana.

Ficção

Parte 1

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A Kantonstraße, como é carinhosamente conhecida a Kantstraße, é a Chinatown de Berlim. A rua tem um charme único e acompanha o traçado da Kurfürstendamm. Enquanto o Ku’damm se enfeita com lojas de grife e um monte de armadilhas para turistas, a Kantstr. possui uma combinação de lojas locais, teatros e restaurantes. Os chineses são a maioria, mas não faltam opções de trattorias. Para completar, a praça Savignyplatz deixa esta região de Charlottenburg ainda mais charmosa, com seus restaurantes com varandas, cafés e bistrôs.

Sentado na pequena mesa ao lado da janela, terminei calmamente meu prato de Wontons de camarão. O simpático restaurante de comida cantonesa me chamou atenção desde a primeira vez que passei pela Kantstr. O nome no letreiro faz os turistas metidos a locais sairem correndo. Quem é que vai querer postar na rede social que está em um restaurante chamado Good Friends? Ninguém. Mas apesar do restaurante não colecionar “curtidas”  na Internet, qualquer incauto como eu que passar na porta toda noite durante dois meses vai notar que o Good Friends vive cheio de chineses. Não apenas chineses, mas chineses velhos. E toda noite eu ficava analisando aquela cena. As paredes vermelhas, as mesas grandes e redondas com bandejas rotatórias no centro e aquela imensa quantidade de comida que aqueles senhores e senhoras bem vestidos giravam continuamente até finalmente colocar em seus pratos. O primeiro pensamento que veio à minha mente foi sobre a qualidade da comida. Tendo em vista a idade avançada dos frequentadores, tudo leva a crer que a comida servida ali não deve fazer muito mal, pelo menos não o suficiente para matar os velhinhos. O segundo pensamento foi sobre as roupas que as pessoas estavam vestindo. Parecia indicar um sinal de respeito pelo restaurante e pela comida. Por último, a decoração de gosto de duvidoso e o nome sem nenhuma pretensão me fez tomar a decisão que mudaria o rumo da minha noite e da minha vida.

Depois de percorrer as doze páginas do cardápio, comecei a tentar decifrar qual era a expectativa do garçom sobre o meu pedido. O ruído no restaurante era estrangeiro e uma música típica dava melodia ao cheiro que saia da cozinha. O cardápio, diplomaticamente escrito em chinês e alemão não parecia indicar uma ordem lógica para o pedido. E foi no meio daquela estranha combinação de línguas que eu não entendo muito bem que a expressão 云吞 me saltou os olhos. Conhecer um idioma é mergulhar na alma de um povo. O ideograma para aquela pequena trouxinha cozida suavemente no vapor não poderia ser mais apropriado: Engolir Nuvem. Infelizmente a beleza se perde na tradução ao se preocupar apenas em capturar o som produzido pelo ideograma e não o seu significado. E a delicadeza da nuvem vira “Wonton” em terras germânicas. Chamei o garçom para fazer o pedido e por um momento pensei em pedir para Engolir Nuvem de camarão, mas com medo de passar vergonha preferi falar simplesmente Garnele Wonton.

Não vi a hora passar, mas sabia que a terceira dose de Red Star já estava fazendo o efeito desejado. Naquele estado de obnubilação da consciência, eu pedi a conta enquanto planejava a minha volta para casa. Eram 3 quilômetros com uma leve brisa de 5ºC no rosto. Mesmo sabendo que poderia chegar em 10 minutos de metrô, não queria correr o risco de me aproximar de uma plataforma naquele estado. A conta chegou em um pratinho negro que parecia ser feito de baquelite, com códigos indecifráveis, um valor impresso riscado de caneta e um outro valor escrito à mão. No meio do prato um saquinho branco sem absolutamente nada escrito. Passei a língua no céu da boca e pensei como seria bom comer um biscoitinho da sorte para mascarar aquele gosto de guarda-chuva que já tomava conta de mim. Coloquei o dinheiro no pratinho de forma a mostrar claramente cada nota, formando um leque colorido de Euros. Abri o biscoito e quebrei ele exatamente ao meio para encontrar o pequeno pedaço de papel com os dizeres em letras mínimas: “Your life is in danger. Say nothing to anyone. You must leave the city immediately and never return. Repeat: say nothing.”

Parte 2 (1ª versão)

Bebi o último gole de Red Star no fundo do copo, saí do restaurante e fui andando pela rua ainda molhada pela chuva que tinha caído mais cedo. Passei por debaixo do viaduto desviando das poças que indicavam onde estavam as goteiras. O reflexo das luzes verdes e rosas no teto criavam uma espécie de experiência psicodélica.

Ignorei a entrada para a estação de S-Bahn de Savignyplatz e segui em direção ao Ku’damm. Peguei o telefone e rodei toda a agenda procurando alguém para ligar. Com certeza, meu telefone estava grampeado e meus cartões estavam sendo monitorados. Tinha que usar isto a meu favor.

Andei pelo Ku’damm até achar um táxi simpático, não queria deixar Berlim em um Toyota híbrido. Quando vi a Mercedes parada na esquina, andei calmamente olhando para os olhos do taxista. Ele me levaria ao meu destino. Literalmente.

Ele arrancou com o carro e ligou o taxímetro em um ato contínuo. Para o Tegel, eu disse, antes que ele perguntasse. E enquanto cruzava aquelas ruas, não resisti e abri o vidro para ouvir o barulho da cidade. A sirene da ambulância, o assobio do S-Bahn pelos trilhos no alto, o grave do metrô nas profundezas e os pneus do táxi rodando pelo asfalto molhado.

O Tegel era o aeroporto do setor francês. Até 1990 companhias alemãs não podiam usar o aeroporto. Ainda assim, ele era o principal aeroporto da cidade, servindo de base para a Air France, British Airways e a Pan Am. A pista longa permitia que o Caravelle e o 707 pousassem em segurança. Em 1976 o Tegel passou a receber também o Concorde na linha CDG-TXL.

Paguei o táxi e fui andando pela parte externa do terminal. Entrei pela porta lateral e fui direto no balcão da companhia para comprar a passagem. Ninguém no balcão. Andei para um lado e para o outro até ver aquela placa de “Vorübergehend Geschlossen”. Fui direto para o check-in e perguntei para um senhor obeso de bochechas vermelhas se o voo ainda estava aberto e se poderia comprar a passagem diretamente com ele. Sem tirar os olhos da tela do computador ele disse – Moment! Na, ja. Digitou no teclado mais um pouco e perguntou o nome do passageiro. Entreguei o passaporte e o cartão e fiquei esperando ele finalizar o processo.

Entrei na sala de embarque e procurei o bar. Um homem olhava fixamente para a TV que passava os destaques do futebol. Sentei no balcão, deixando uma cadeira vazia entre mim e ele. Pedi uma bebida e sem tirar os olhos do copo, resmunguei algo sobre o Hertha. O time de Berlim estava em quarto lugar no campeonato alemão, o que significava um grande feito para a equipe e um orgulho para a torcida. O homem não esboçou reação. Tomei mais um gole e tentei novamente. Nenhuma reação. Estava quase indo embora do bar, quando ele se levantou e andou em direção ao banheiro. O destino estava do meu lado. Sentei na cadeira que estava vazia e fiquei esperando ele voltar.

O embarque começou pontualmente no horário programado. Entramos no avião e fomos andando até o fundo.

Coloquei o celular no ouvido e comecei uma conversa. – O que aconteceu? Ela está bem? O que aconteceu? Levaram ela para o hospital? Não, eu estou no aeroporto. Vou direto para lá. Preciso avisar o Gus. Olhei para o meu colega de bar e falei: – Preciso falar com o meu filho, você poderia me emprestar o celular? Acabou a bateria do meu. Ele tirou o telefone do bolso da jaqueta e respondeu – Claro!

O telefone chamava. Alô, sou eu. Gus, estou no Tegel. Sua mãe sofreu um acidente. Estou indo para o hospital. Devolvi o celular ao homem e levantei da poltrona. Agradeci e expliquei que minha mulher tinha sofrido um acidente e que precisava sair do avião e ir para o hospital imediatamente. Fui até o chefe de cabine e expliquei a situação. Não tinha nenhuma bagagem despachada, mostrei meu cartão de embarque. O homem pegou o rádio, passou o nome e aguardou a confirmação. Antes mesmo dele falar qualquer coisa, agradeci a compreensão e pedi desculpas pelo transtorno. Saí do avião e andei pela pista do aeroporto.

Oficialmente, eu ainda estava dentro daquele avião. O Sr. Ernst Hoffmann tinha embarcado com o meu cartão de embarque e estava a caminho de Copenhagen. Enquanto ele estava no banheiro pela segunda vez, depois de duas cervejas e um papo animado sobre a Bundesliga, consegui trocar nossos cartões de embarque. Não existe controle de pessoas entre os países integrantes da Comunidade Europeia. Eu estava na sala de embarque novamente e tinha desembarcado com o cartão dele. Precisava ir para saída do desembarque. O Gus deve estar chegando e a noite vai ser longa. Ainda preciso plantar mais uma isca na Dinamarca antes de poder andar em Berlim durante o dia.

Supermercado

Ir ao supermercado diariamente é uma realidade para muitos berlinenses. Isto ocorre por dois motivos, basicamente: o primeiro é que as geladeiras aqui são pequenas e o segundo é que muita gente não tem carro. Eu me enquadro nessas duas categorias.

Então, basicamente compro no mercado o que eu consigo carregar. Isto significa 2 bolsas com até uns 10 quilos cada. O mercado mais perto aqui de casa fica a uma quadra e o mais longe fica a três. Normalmente, tem um mercado a cada 2 quadras em Berlim. O mercado com o maior número de lojas é o Kaiser’s. É um mercado mais caro, com marcas selecionados e costuma ficar aberto até meia-noite. Aqui do lado de casa tem um Kaiser’s, um Lidl, um Penny, um Netto, um BioCompany e um Rewe.

Cada mercado vende produtos de marcas diferentes, portanto não existe uma concorrência tão direta. Além disso, os mercados têm também sua marca própria. Isto significa que quando eu quero um produto de uma marca específica eu tenho que saber qual mercado comercializa aquela marca. Por exemplo, ontem comprei champignon em conserva. Eu gosto da marca Bonduelle (a mesma que tem no Brasil) e ela é vendida no supermercado Penny. Eu gosto do atum em lata que vende no supermercado Lidl. O creme de leite que eu uso só vende no supermercado Istambul. O macarrão oriental que eu gosto só vende no supermercado Amazing Asia. Frutas e legumes, eu prefiro comprar no Rewe. Para comprar cerveja mais barata, eu vou no Netto. E assim vai.

Isso ocorre porque os supermercados são pequenos por aqui e eles só podem ter uma ou duas marcas de cada produto na prateleira. Mesmo nos mercados com estacionamento é raro ver alguém enchendo o carrinho de compras por aqui. Aliás, para usar o carrinho de supermercado é necessário fazer um depósito de €1. O valor é devolvido quando você retorna o carrinho ao lugar em que o encontrou. Dessa maneira, não existe um funcionário arrumando os carrinhos aqui na Europa. Diferente da França, aqui os mercados não costumam ter caixas sem funcionários. A impaciência do alemão para ficar na fila obriga que os mercados contratem caixas com habilidades de ninja  para passar as compras na velocidade da luz. Um carrinho cheio de compras é passado em poucos segundos (é tão assustador que tem até vídeo no Youtube, pode procurar!). E ai de você se não colocar tudo de volta no carrinho, cestinha ou sacola e desocupar o caixa imediatamente. Com certeza o pessoal vai começar a reclamar na fila. A sacola, obviamente, é cobrada e você deve levar a sua de casa se não quiser pagar €0,10 por cada sacolinha descartável. A dica é comprar uma sacola feita de PET no próprio mercado que custa €1 e aguenta uns 20kg sem problemas!

Outra curiosidade aqui na Alemanha é o “pauzinho” de dividir a esteira do caixa. O alemão é obcecado pelo pauzinho quando está na fila. Ninguém coloca a compra na esteira enquanto o cliente da frente não coloca o pauzinho na esteira para indicar onde acaba a compra dele e onde começa a compra do outro. Se você não coloca o divisor, das duas uma: ou a pessoa vai ficar segurando as compras na mão até você pagar as suas compras ou ele vai dar um jeito de colocar o divisor para você (e ficar bem chateado com isso). Toda essa loucura é para que a fila dure o mínimo de tempo possível. O divisor serve para que o caixa pare de passar os produtos na velocidade da luz e cobre o cliente. Sem o divisor, provavelmente o caixa faria a mesma coisa que acontece na entrada dos Simpsons e passaria até o bebê no leitor de código de barras.

Ajustes de segurança

Estou tendo que fazer alguns ajustes técnicos no site para aumentar a segurança. Isto está impossibilitando que eu faça posts via iPhone temporariamente. Além de trocar senhas frequentemente e manter todos os scripts atualizados, é necessário identificar e bloquear ameaças de hackers o tempo todo.

Um site desprotegido pode se transformar em um zumbi para enviar milhões de spams, disseminar vírus e invadir outros sites.

Assim que conseguir estabilizar o site, voltarei a postar.