Ficção

Parte 1

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A Kantonstraße, como é carinhosamente conhecida a Kantstraße, é a Chinatown de Berlim. A rua tem um charme único e acompanha o traçado da Kurfürstendamm. Enquanto o Ku’damm se enfeita com lojas de grife e um monte de armadilhas para turistas, a Kantstr. possui uma combinação de lojas locais, teatros e restaurantes. Os chineses são a maioria, mas não faltam opções de trattorias. Para completar, a praça Savignyplatz deixa esta região de Charlottenburg ainda mais charmosa, com seus restaurantes com varandas, cafés e bistrôs.

Sentado na pequena mesa ao lado da janela, terminei calmamente meu prato de Wontons de camarão. O simpático restaurante de comida cantonesa me chamou atenção desde a primeira vez que passei pela Kantstr. O nome no letreiro faz os turistas metidos a locais sairem correndo. Quem é que vai querer postar na rede social que está em um restaurante chamado Good Friends? Ninguém. Mas apesar do restaurante não colecionar “curtidas”  na Internet, qualquer incauto como eu que passar na porta toda noite durante dois meses vai notar que o Good Friends vive cheio de chineses. Não apenas chineses, mas chineses velhos. E toda noite eu ficava analisando aquela cena. As paredes vermelhas, as mesas grandes e redondas com bandejas rotatórias no centro e aquela imensa quantidade de comida que aqueles senhores e senhoras bem vestidos giravam continuamente até finalmente colocar em seus pratos. O primeiro pensamento que veio à minha mente foi sobre a qualidade da comida. Tendo em vista a idade avançada dos frequentadores, tudo leva a crer que a comida servida ali não deve fazer muito mal, pelo menos não o suficiente para matar os velhinhos. O segundo pensamento foi sobre as roupas que as pessoas estavam vestindo. Parecia indicar um sinal de respeito pelo restaurante e pela comida. Por último, a decoração de gosto de duvidoso e o nome sem nenhuma pretensão me fez tomar a decisão que mudaria o rumo da minha noite e da minha vida.

Depois de percorrer as doze páginas do cardápio, comecei a tentar decifrar qual era a expectativa do garçom sobre o meu pedido. O ruído no restaurante era estrangeiro e uma música típica dava melodia ao cheiro que saia da cozinha. O cardápio, diplomaticamente escrito em chinês e alemão não parecia indicar uma ordem lógica para o pedido. E foi no meio daquela estranha combinação de línguas que eu não entendo muito bem que a expressão 云吞 me saltou os olhos. Conhecer um idioma é mergulhar na alma de um povo. O ideograma para aquela pequena trouxinha cozida suavemente no vapor não poderia ser mais apropriado: Engolir Nuvem. Infelizmente a beleza se perde na tradução ao se preocupar apenas em capturar o som produzido pelo ideograma e não o seu significado. E a delicadeza da nuvem vira “Wonton” em terras germânicas. Chamei o garçom para fazer o pedido e por um momento pensei em pedir para Engolir Nuvem de camarão, mas com medo de passar vergonha preferi falar simplesmente Garnele Wonton.

Não vi a hora passar, mas sabia que a terceira dose de Red Star já estava fazendo o efeito desejado. Naquele estado de obnubilação da consciência, eu pedi a conta enquanto planejava a minha volta para casa. Eram 3 quilômetros com uma leve brisa de 5ºC no rosto. Mesmo sabendo que poderia chegar em 10 minutos de metrô, não queria correr o risco de me aproximar de uma plataforma naquele estado. A conta chegou em um pratinho negro que parecia ser feito de baquelite, com códigos indecifráveis, um valor impresso riscado de caneta e um outro valor escrito à mão. No meio do prato um saquinho branco sem absolutamente nada escrito. Passei a língua no céu da boca e pensei como seria bom comer um biscoitinho da sorte para mascarar aquele gosto de guarda-chuva que já tomava conta de mim. Coloquei o dinheiro no pratinho de forma a mostrar claramente cada nota, formando um leque colorido de Euros. Abri o biscoito e quebrei ele exatamente ao meio para encontrar o pequeno pedaço de papel com os dizeres em letras mínimas: “Your life is in danger. Say nothing to anyone. You must leave the city immediately and never return. Repeat: say nothing.”

Parte 2 (1ª versão)

Bebi o último gole de Red Star no fundo do copo, saí do restaurante e fui andando pela rua ainda molhada pela chuva que tinha caído mais cedo. Passei por debaixo do viaduto desviando das poças que indicavam onde estavam as goteiras. O reflexo das luzes verdes e rosas no teto criavam uma espécie de experiência psicodélica.

Ignorei a entrada para a estação de S-Bahn de Savignyplatz e segui em direção ao Ku’damm. Peguei o telefone e rodei toda a agenda procurando alguém para ligar. Com certeza, meu telefone estava grampeado e meus cartões estavam sendo monitorados. Tinha que usar isto a meu favor.

Andei pelo Ku’damm até achar um táxi simpático, não queria deixar Berlim em um Toyota híbrido. Quando vi a Mercedes parada na esquina, andei calmamente olhando para os olhos do taxista. Ele me levaria ao meu destino. Literalmente.

Ele arrancou com o carro e ligou o taxímetro em um ato contínuo. Para o Tegel, eu disse, antes que ele perguntasse. E enquanto cruzava aquelas ruas, não resisti e abri o vidro para ouvir o barulho da cidade. A sirene da ambulância, o assobio do S-Bahn pelos trilhos no alto, o grave do metrô nas profundezas e os pneus do táxi rodando pelo asfalto molhado.

O Tegel era o aeroporto do setor francês. Até 1990 companhias alemãs não podiam usar o aeroporto. Ainda assim, ele era o principal aeroporto da cidade, servindo de base para a Air France, British Airways e a Pan Am. A pista longa permitia que o Caravelle e o 707 pousassem em segurança. Em 1976 o Tegel passou a receber também o Concorde na linha CDG-TXL.

Paguei o táxi e fui andando pela parte externa do terminal. Entrei pela porta lateral e fui direto no balcão da companhia para comprar a passagem. Ninguém no balcão. Andei para um lado e para o outro até ver aquela placa de “Vorübergehend Geschlossen”. Fui direto para o check-in e perguntei para um senhor obeso de bochechas vermelhas se o voo ainda estava aberto e se poderia comprar a passagem diretamente com ele. Sem tirar os olhos da tela do computador ele disse – Moment! Na, ja. Digitou no teclado mais um pouco e perguntou o nome do passageiro. Entreguei o passaporte e o cartão e fiquei esperando ele finalizar o processo.

Entrei na sala de embarque e procurei o bar. Um homem olhava fixamente para a TV que passava os destaques do futebol. Sentei no balcão, deixando uma cadeira vazia entre mim e ele. Pedi uma bebida e sem tirar os olhos do copo, resmunguei algo sobre o Hertha. O time de Berlim estava em quarto lugar no campeonato alemão, o que significava um grande feito para a equipe e um orgulho para a torcida. O homem não esboçou reação. Tomei mais um gole e tentei novamente. Nenhuma reação. Estava quase indo embora do bar, quando ele se levantou e andou em direção ao banheiro. O destino estava do meu lado. Sentei na cadeira que estava vazia e fiquei esperando ele voltar.

O embarque começou pontualmente no horário programado. Entramos no avião e fomos andando até o fundo.

Coloquei o celular no ouvido e comecei uma conversa. – O que aconteceu? Ela está bem? O que aconteceu? Levaram ela para o hospital? Não, eu estou no aeroporto. Vou direto para lá. Preciso avisar o Gus. Olhei para o meu colega de bar e falei: – Preciso falar com o meu filho, você poderia me emprestar o celular? Acabou a bateria do meu. Ele tirou o telefone do bolso da jaqueta e respondeu – Claro!

O telefone chamava. Alô, sou eu. Gus, estou no Tegel. Sua mãe sofreu um acidente. Estou indo para o hospital. Devolvi o celular ao homem e levantei da poltrona. Agradeci e expliquei que minha mulher tinha sofrido um acidente e que precisava sair do avião e ir para o hospital imediatamente. Fui até o chefe de cabine e expliquei a situação. Não tinha nenhuma bagagem despachada, mostrei meu cartão de embarque. O homem pegou o rádio, passou o nome e aguardou a confirmação. Antes mesmo dele falar qualquer coisa, agradeci a compreensão e pedi desculpas pelo transtorno. Saí do avião e andei pela pista do aeroporto.

Oficialmente, eu ainda estava dentro daquele avião. O Sr. Ernst Hoffmann tinha embarcado com o meu cartão de embarque e estava a caminho de Copenhagen. Enquanto ele estava no banheiro pela segunda vez, depois de duas cervejas e um papo animado sobre a Bundesliga, consegui trocar nossos cartões de embarque. Não existe controle de pessoas entre os países integrantes da Comunidade Europeia. Eu estava na sala de embarque novamente e tinha desembarcado com o cartão dele. Precisava ir para saída do desembarque. O Gus deve estar chegando e a noite vai ser longa. Ainda preciso plantar mais uma isca na Dinamarca antes de poder andar em Berlim durante o dia.

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