Água mineral

O alemão adora água mineral. No mercado é possível encontrar dezenas de marcas de água e dezenas de tipo de água. Na primeira vez que estive em Berlim passei um sufoco com água. Comprei 3 garrafas d’água e na hora que fui beber eram com gás. Como tinha comprado para deixar na mochila, não queria tomar água com gás quente. Resolvi voltar no mercado e pedir para trocar. Depois de uns 10 minutos fazendo mímica, uma moça me levou até uma seção que tinha água sem gás (em embalagem longa vida).

Quando cheguei aqui repeti o fiasco. Cheguei no mercado e comprei uma garrafa de água. Dessa vez de tampa rosa, porque lembrava que a com tampa azul é sempre com gás. Até no avião eles só servem água com gás. Bem, cheguei no apartamento e quando fui beber a água ela parecia pesada e quase tinha gosto. Só então eu fui ler com a ajuda do dicionário que tinha comprado que se tratava de uma água fortificada com cálcio e magnésio para mulheres na menopausa. Pelo menos não preciso me preocupar com osteoporose tão cedo, pensei.

Depois disso, passei a beber água da torneira mesmo, que segundo o Google, é potável. Mas com saudade da água mineral resolvi voltar a comprar água engarrafada no mercado. Como já escrevi aqui, cada garrafa de 1,5l tem um casco de 0,25 de euro e a água custa entre 0,25 e 0,75 dependendo da qualidade.

Hoje consegui comprar a água que eu queria finalmente, graças ao curso intensivo de alemão e ao tradutor no meu celular!

  
Ohne Kohlensäure = não carbonatada

Natriumarm = baixo teor de sódio

Ausgewogen mineralisiert = minerais equilibrados

Für Babynahrung geeignet = apropriado para a alimentação de bebês

Mais um detalhe: água sem gás é sempre mais cara do que água com gás!

Sr. Tür Öffner

As vezes eu me pego rindo sozinho. Hoje cheguei no curso da Sarah e a porta do prédio estava fechada. Toquei a campainha, mas ninguém atendeu. Fiquei do lado de fora esperando ela sair e nesse meio tempo um rapaz passou por mim, apertou um botão e abriu a porta. Fingi que não estava olhando e assim que ele subiu as escadas fui ver o que ele tinha apertado. Era o botão “Tür Öffner”.

No meio daquele monte de nomes alemães, não tinha notado que um dos alemães era o Sr. “Tür Öffner”, conhecido em português como “Abridor de Porta”.

Isto me lembra outro pequeno detalhe sobre a Alemanha. Aqui os apartamentos não tem número. Na entrada do prédio tem um interfone como o sobrenome dos residentes ou nome da empresa ao lado do botão. Este nome é usado como referência para o carteiro também. Mas e o seu sobrenome não estiver no interfone? Na correspondência deve se escrever:

C/O “Sobrenome que consta no interfone”
Rua Nome, Número
Cidade, CEP (PLZ em alemão)
País

Sol e chuva

A temperatura subiu hoje, mas no fim do dia choveu. Nessas horas o metrô salva. Usando as vias subterrâneas consegui evitar de me molhar muito na volta para casa. A aula foi ótima hoje e sinto que estou progredindo bem rápido!

Passei no mercado, fiz uma compra grande e agora temos comida para semana. Um exercício que estou fazendo agora é ir no açougue e na padaria pedir os produtos para o atendente em alemão. Até agora deu certo e eu fico bem feliz quando eles continuam a conversa em alemão.

A beleza de Berlim sempre me impressiona. Seja nos parques, lagos e castelos sempre tão bem cuidados, assim como nas coisas simples como uma estação de metrô.

Foto: Estação de Metrô, Berlim (2015) por Antenor.

Os detalhes

A moça que alugou nosso apartamento não poderia ser mais simpática. Quando ainda estava no Brasil ficamos trocando e-mails sobre viagens e gastronomia. Como ela estava indo para o Peru preparei minha lista de restaurantes favoritos. Ela em retribuição fez o mesmo e deixou seus favoritos. Olha que legal:

  
Ela anotou em cada cartão e cardápio o tipo de comida e a opinião dela.

Em um raio de 1km devem ter pelo pelo menos 5 restaurantes japoneses, 4 italianos e 3 vietnamitas. Além dos kebabs e currywursts. Sem as dicas dela jamais conseguiríamos saber qual é o melhor e qual é o pior.

Bat Viet

A mudança no clima é visível em Berlim e a cada dia a temperatura vai caindo. Às 22:30, por exemplo está 13 graus, mas a temperatura pode chegar aos 8 graus no meio da noite.

Os lugares fechados costumam ser quentes e é necessário tirar o casaco se estiver usando um. Na casa das pessoas que eu fui todo mundo tira o sapato na entrada (como acontece na Ásia). É um hábito bem higiênico que mantém a casa limpa mais tempo. Já adotamos.

Amanhã tem happy hour depois da aula de alemão. Parece uma boa oportunidade de conhecer melhor o pessoal da minha sala. Até agora eu sei que a brasileira (38 anos) está acompanhando o marido que trabalha na Embaixada, o iemenita é diplomata (50 anos), a francesa veio aprender alemão (30 anos), o australiano está fazendo um pós-doutorado (35 anos), a venezuelana (26 anos) veio com namorado e um filho recém-nascido. O sírio (16 anos) e o iraquiano (17 anos) estão apenas estudando aqui e vieram com a família. A chinesa e a israelense não apareceram mais na aula.

Hoje peguei o jantar em um restaurante vietnamita aqui do lado. Muito bom! Os rolinhos de arroz com legume estavam excelentes e o macarrão também. O lugar é bem simples. O dono faz a comida e cobra. Apesar de ter mesas e um ambiente bem bacana, não tem garçom. Cada um pede, paga e pega no balcão. O preço é bem convidativo: 3 rolinhos de legumes e um macarrão oriental para duas pessoas saiu por 9 euros. A comida não tem gosto de shoyu com glutamato monossódico como acontece no Brasil. O sabor lembra realmente a comida vietnamita que eu experimentei em Hanói. Sabores delicados, especiarias e tudo muito fresco e leve. Sensacional!

A parte prática

  
Foto: Bairro de Charlottenburg, Berlim (2015) por Antenor.

Ir no banco, fazer compras, pegar o metrô, sair para jantar. Tudo isto é muito natural para quem já conhece a cidade, a cultura e o idioma do lugar onde mora.

O primeira coisa que fizemos foi entender os supermercados aqui em Berlim. Não vimos nenhum hipermercado ainda, os maiores lembram os mercados de bairro no Brasil. Em muitos deles a entrada é por um lado e a saída é pelo caixa. Não pode sair pela entrada. O carrinho de compras requer o depósito de 1 euro que é devolvido quando você coloca o carrinho de volta no lugar. Todo mercado tem uma máquina de reciclagem que devolve o valor do casco de garrafas de plástico e de vidro. Uma garrafa d’água de 1,5 litro, por exemplo, vale 0,25 de euro. Vale a pena reciclar! Os alemães gostam de produtos orgânicos e não é difícil encontrar mercados especializados em orgânicos. No caixa, você tem que ser rápido! O caixa passa suas compras e cobra rapidamente e você deve arrumar suas compras em uma balcão apropriado. No caixa você coloca tudo na sua sacola para arrumar depois. Eu falei “sua sacola”. Aqui cada um leva sua sacola, você pode comprar uma de plástico, de pano, de papel ou colocar as coisas na sua bolsa ou mochila. Os preços dos produtos variam bastante de rede para rede. A Aldi é a mais barata enquanto a Rewe é a mais cara. É difícil andar 3 quadras sem encontrar um mercado.

O metrô aqui tem um sistema muito intuitivo. Você consegue se achar rapidamente e tomar o trem certo para o seu destino. A sinalização é clara e objetiva e os trens são freqüentes, o que faz com o eles nunca fiquem lotados. O sistema de transporte é todo integrado, então com um ticket você pode andar de metrô, trem, bonde e ônibus sem ter que pagar novamente. Não existe catraca nas estações nem guichês. Antes de entrar no metrô você compra o seu ticket na máquina e valida em um equipamento ao lado. O ticket da área AB de Berlim com duração de 2 horas custa 2,70 euros. Um passe mensal para utilização na área AB (a partir das 10 horas da manhã) custa 58 euros. Se você for pego sem um ticket válido no metrô a multa é de no mínimo 60 euros. Fiscais a paisana andam pelos vagões e podem pedir o seu ticket a qualquer momento. Eu nunca vi um fiscal.

Os bancos aqui não tem portas giratórias ou guardas na porta. Na entrada é possível avistar os caixas trabalhando atrás de mesas altas comuns sem nenhuma proteção manuseando milhares de euros em espécie o tempo todo. O atendimento é sempre muito cordial. Nem parece que estamos em uma agência bancária!

Ainda não fomos em nenhum restaurante bacana, mas em geral a alimentação é barata na Alemanha. Os pratos executivos saem por 5 euros e um pretzel custa 0,65 de euro. A cerveja também sempre custa centavos (normalmente mais barato do que água). Jantar fora pode custar um pouco mais, uns 12 euros por pessoa para um menu completo. Nada exorbitante.

Até agora não fomos surpreendidos por nenhum alemão grosso ou antipático. Eles são sempre muito prestativos e cordiais, mas é importante sempre ser direto e sincero com eles. Falar não aqui não é problema. Eles não entendem respostas como “pode ser”, “vamos ver” ou o famoso “passa lá em casa qualquer hora”. O que torna Berlim tão agradável em boa parte é o Berliner. Mas vale dizer que assim como no restante da Europa, a Alemanha é um país de imigrantes. De uma forma muito “alemã”, o povo acolhe os recém-chegados, como pode ser visto no caso dos refugiados sírios que estão chegando em Munique.

O idioma é uma barreira. Depois de 2 aulas de alemão eu já entendo o dobro do que eu entendia na semana passada. Entendo 5% do que escuto na TV e uns 15% do que eu leio. Três em cada cinco berlinenses falam alguma coisa de inglês, o que facilita também. Na TV, as sérias americanas são dubladas e é divertido ver Friends ou Seinfeld falando alemão. Com o vocabulário básico que eu tenho, já consigo fazer compras, pedir informações e entender as placas (não palavra por palavra, mas o sentido).

Dia de aula

Aprender algo novo é uma das melhores coisas que existe na vida. E um idioma abre um mundo completamente novo.

Berlim é uma cidade fantástica e a cada dia gosto mais de caminhar pelas ruas e parques da cidade.

Meu curso fica na AlexanderPlatz. Do outro lado da cidade (uns 30 minutos de metrô). No caminho é possível ver todos os pontos turísticos da cidade (do Zôo até a AlexanderPlatz  é um trem elevado). O curso fica ao lado da famosa torre de TV.

Somos 10 alunos: 1 sírio, 1 iraquiano, 1 australiano, 1 francesa, 1 chinesa, 1 iemenita, 1 brasileira, 1 venezuelana, 1 israelense e eu.

No fim da aula caminhei um pouco pela região, peguei o metrô, saltei no Zôo e desci a pé o Kürfustendamm. Hoje o dia estava bem bonito.

Amanhã tem mais!

   
 

Mittagessen

Das Mittagessen heute: Kartoffel Püree, Gemüse und Schnitzel!

  
Tradução: O almoço de hoje: purê de batata, legumes e porquinho empanado!

Estômago forrado para a minha primeira aula de alemão! Almoço feito por mim no apartamento temporário.

Domingo de chuva

  
Domingo preguiçoso de chuva e frio. Perfeito para ficar debaixo das cobertas. Mas continuamos na nossa missão de encontrar o apartamento para alugar. Visitamos quatro hoje. Fiz um almoço alemão! Purê de batata com schnitzel e legumes. Estava muito bom! No fim do dia o tempo abriu, mas o frio não foi embora. 

Comemos um pretzel (em alemão se escreve brezel) também! Falta só a currywurst agora.

Crônica de Partida

  
Foto: Deserto do Atacama (2015) por Antenor.

Incêndios são realmente imprevisíveis. Antigamente os elevadores tinham uma placa com os dizeres “Fumaça é fogo. Em caso de incêndio utilize as escadas.” Sempre achei o autor da placa muito espirituoso. Eu sempre li a primeira frase interpretando a palavra fogo no sentido de “não é fácil”. Este deve ser o humor típico dos escritores de placas de aviso. Agora mesmo estou em um avião e o número de placas de aviso é avassalador. Eu imagino quantas interpretações estes avisos podem ter. Um exemplo à minha frente é claramente uma obra-prima da literatura de placas de aviso: “Lavatórios Traseiros”. Ou talvez a mistura de vinho branco com Heineken esteja falando mais alto.

O mais interessante no ser humano é a facilidade que ele tem em colocar sua vida em risco sem pensar duas vezes. Isto ou a imensa incapacidade de calcular o risco real dos seus atos. Agora, a 10.000 metros de altura graças a duas míseras turbinas enquanto esta geringonça balança me lembro da facilidade em que nos colocamos em situações de risco na vida. E não estou falando do medo típico de um desastre aéreo, mas dos riscos envolvidos em deixar tudo que se conhece para trás e atravessar o oceano atrás de algo diferente. Lembrei do diálogo inicial do filme Dead Man de Jim Jarmusch:

“Olhe pela janela. E isto não te lembra de quando você estava em um barco, e mais tarde naquela noite, você estava deitado, olhando para cima, e não era possível diferenciar a água da paisagem no horizonte, e você pensa, “Por que a paisagem está se movendo, mas o barco está parado?”

Não comer durante o voo é um excelente negócio. Em uma só tacada você escapa da comida de segunda requentada, se sente mais leve para dormir e mais bem disposto ao fim do voo. Para os voos noturnos, o aeroporto de Guarulhos oferece excelentes opções de restaurante para uma farta refeição antes do voo. A nossa opção habitual é o Red Lobster. Cogumelos recheados, salmão ao molho de tabasco e o pãozinho de entrada. Quem quer comer “chicken or pasta” dentro de um avião depois desse banquete? E sobra espaço para os drinks noturnos. Em tempos de vacas magras a TAM ainda está servindo vinho, whisky e cerveja a bordo. Coisa fina.

Gritei aquele grito mecânico ao pular de bungee jump. Fui como quem vai ao dentista. Para não parecer um E.T. gritei depois que a corda já estava quase parada e se alguém estivesse prestando atenção notaria que eu era um charlatão da adrenalina. Fiquei mais nervoso fazendo uma apresentação de PowerPoint para um bando de desconhecidos. Ou para entrevista para um estágio que eu nem queria tanto. Gostaria de ler mais, mas sou preguiçoso demais para colocar este desejo em prática. No início achava que era culpa da televisão, mas hoje vejo que parei de assistir TV e não passei a ler mais. Quando resolvemos ir para Berlim, decidi conhecer a cidade de outra forma, sem guias de turismo ou blogs na Internet. Comprei o livro Um Brasileiro em Berlim de João Ubaldo Ribeiro e me diverti com as histórias do tartamudo do Ku’damm. Embalei na leitura e continuei com o lançamento de Chico Buarque, O Irmão Alemão. Sempre gostei da ideia de escrever, mas nunca tive a disciplina necessária.

É difícil definir um ponto de equilíbrio para o grau de consciência da mortalidade. Se achar imortal pode cair bem na adolescência, mas é um pouco improdutivo na vida adulta. Por outro lado, a constatação da finitude da vida pode desmotivar a mente de sonhar e o corpo de realizar. Foi mais ou menos assim que eu acordei um dia em maio de 2013 pensando que a vida era curta demais para se viver uma vida só. Aos doze anos descobri que era possível criar um outro mundo a partir de si mesmo. Não, não usei nenhum entorpecente na pré-adolescência. Só troquei de escola. E de personalidade. Descobri que ao redor de desconhecidos eu poderia ser quem eu quisesse, sem o estigma da convivência. Esta persona volátil tem seus efeitos colaterais. Assim como em uma conversa de telefone em que alguém pergunta onde você está e você diz estar em um local que de fato só chegará em alguns minutos. O que faz as pessoas mentirem despreocupadamente neste caso é a certeza de que estarão em breve no local que dizem estar. E da mesma forma eu criei as histórias que moldaram minhas diferentes personalidades. No plural mesmo, mas quase nunca de forma concorrente. Uma personalidade de cada vez permite que se aprecie melhor cada personagem. Assim como na história que eu começo a escrever agora.