Foto: Deserto do Atacama (2015) por Antenor.
Incêndios são realmente imprevisíveis. Antigamente os elevadores tinham uma placa com os dizeres “Fumaça é fogo. Em caso de incêndio utilize as escadas.” Sempre achei o autor da placa muito espirituoso. Eu sempre li a primeira frase interpretando a palavra fogo no sentido de “não é fácil”. Este deve ser o humor típico dos escritores de placas de aviso. Agora mesmo estou em um avião e o número de placas de aviso é avassalador. Eu imagino quantas interpretações estes avisos podem ter. Um exemplo à minha frente é claramente uma obra-prima da literatura de placas de aviso: “Lavatórios Traseiros”. Ou talvez a mistura de vinho branco com Heineken esteja falando mais alto.
O mais interessante no ser humano é a facilidade que ele tem em colocar sua vida em risco sem pensar duas vezes. Isto ou a imensa incapacidade de calcular o risco real dos seus atos. Agora, a 10.000 metros de altura graças a duas míseras turbinas enquanto esta geringonça balança me lembro da facilidade em que nos colocamos em situações de risco na vida. E não estou falando do medo típico de um desastre aéreo, mas dos riscos envolvidos em deixar tudo que se conhece para trás e atravessar o oceano atrás de algo diferente. Lembrei do diálogo inicial do filme Dead Man de Jim Jarmusch:
“Olhe pela janela. E isto não te lembra de quando você estava em um barco, e mais tarde naquela noite, você estava deitado, olhando para cima, e não era possível diferenciar a água da paisagem no horizonte, e você pensa, “Por que a paisagem está se movendo, mas o barco está parado?”
Não comer durante o voo é um excelente negócio. Em uma só tacada você escapa da comida de segunda requentada, se sente mais leve para dormir e mais bem disposto ao fim do voo. Para os voos noturnos, o aeroporto de Guarulhos oferece excelentes opções de restaurante para uma farta refeição antes do voo. A nossa opção habitual é o Red Lobster. Cogumelos recheados, salmão ao molho de tabasco e o pãozinho de entrada. Quem quer comer “chicken or pasta” dentro de um avião depois desse banquete? E sobra espaço para os drinks noturnos. Em tempos de vacas magras a TAM ainda está servindo vinho, whisky e cerveja a bordo. Coisa fina.
Gritei aquele grito mecânico ao pular de bungee jump. Fui como quem vai ao dentista. Para não parecer um E.T. gritei depois que a corda já estava quase parada e se alguém estivesse prestando atenção notaria que eu era um charlatão da adrenalina. Fiquei mais nervoso fazendo uma apresentação de PowerPoint para um bando de desconhecidos. Ou para entrevista para um estágio que eu nem queria tanto. Gostaria de ler mais, mas sou preguiçoso demais para colocar este desejo em prática. No início achava que era culpa da televisão, mas hoje vejo que parei de assistir TV e não passei a ler mais. Quando resolvemos ir para Berlim, decidi conhecer a cidade de outra forma, sem guias de turismo ou blogs na Internet. Comprei o livro Um Brasileiro em Berlim de João Ubaldo Ribeiro e me diverti com as histórias do tartamudo do Ku’damm. Embalei na leitura e continuei com o lançamento de Chico Buarque, O Irmão Alemão. Sempre gostei da ideia de escrever, mas nunca tive a disciplina necessária.
É difícil definir um ponto de equilíbrio para o grau de consciência da mortalidade. Se achar imortal pode cair bem na adolescência, mas é um pouco improdutivo na vida adulta. Por outro lado, a constatação da finitude da vida pode desmotivar a mente de sonhar e o corpo de realizar. Foi mais ou menos assim que eu acordei um dia em maio de 2013 pensando que a vida era curta demais para se viver uma vida só. Aos doze anos descobri que era possível criar um outro mundo a partir de si mesmo. Não, não usei nenhum entorpecente na pré-adolescência. Só troquei de escola. E de personalidade. Descobri que ao redor de desconhecidos eu poderia ser quem eu quisesse, sem o estigma da convivência. Esta persona volátil tem seus efeitos colaterais. Assim como em uma conversa de telefone em que alguém pergunta onde você está e você diz estar em um local que de fato só chegará em alguns minutos. O que faz as pessoas mentirem despreocupadamente neste caso é a certeza de que estarão em breve no local que dizem estar. E da mesma forma eu criei as histórias que moldaram minhas diferentes personalidades. No plural mesmo, mas quase nunca de forma concorrente. Uma personalidade de cada vez permite que se aprecie melhor cada personagem. Assim como na história que eu começo a escrever agora.