Brasileiros em Berlim

Tem uma série de grupos on-line de brasileiros em Berlim. Os espaços tem como objetivo divulgar atividades culturais como shows de artistas brasileiros, vender ou doar de tudo, oferecer serviços, tirar dúvidas e dar dicas.

Dia 25 de outubro vai ter show da Céu aqui. É uma cantora de MPB do momento. Seu Jorge vai fazer show em Stuttgart. Muita gente chega no grupo já perguntando onde vende feijão e farofa. A comunidade de brasileiros em Berlim é relativamente pequena uma vez que muita gente prefere morar em cidades como Munique, Hamburgo ou até mesmo Frankfurt.

Eu vou anotando uma dica aqui e outra ali, mas muitas perguntas tem a mesma reposta. “Onde eu compro (qualquer coisa) barato aqui em Berlim?” E a resposta é sempre: na Internet! Então muita gente vai ao shopping, fotografa o produto e procura na Internet. Compra no site da Amazon e recebe em 2 dias em casa.

Eu ainda não comprei nada aqui. Na verdade, comprei duas coisas: um cinto e um escorredor de macarrão. O cinto que eu trouxe arrebentou no primeiro dia aqui. E um escorredor é uma mão na roda. Não sei como a Lisa não tinha um em casa.

Este fim de semana quero ir na Ikea. Preciso comprar um travesseiro decente. Uma coisa que europeu não faz direito é dormir. Primeiro que a a cama de casal normalmente é feita com dois colchões de solteiro. E os travesseiros aqui são quadrados e moles. Preciso de algo mais substancial e retangular.

Em tempo, a loja que vende feijão e farofa aqui em Berlim se chama Aqui España. Não fui lá ainda, mas já passei na porta.

Airbnb

A certeza cobra um preço alto demais. Primeiro porque exclui todas as outras opções e, consequentemente, finda a busca. Sendo assim, é possível dizer que a certeza encerra o assunto e, da mesma forma, determina seus limites. E são estes limites da certeza que fazem a vida confortável. Quando já conhecemos o caminho a ser feito, ou ainda, quando conhecemos o melhor caminho a ser feito e podemos nos gabar da nossa certeza, mostrar para todo mundo que somos os senhores daquela situação.

Quanto mais eu leio, viajo, conheço pessoas e lugares, mais desconfortável fica a vida. Não existe uma certeza sequer que fique de pé se você se der ao luxo de questioná-la. O que vivemos é muito pouco comparado com o tempo que passamos vivos. Boa parte do tempo gastamos a vida para os outros, para as coisas ou para nada. E nada é o mais próximo que existe da certeza. Porque não provoca e não alimenta, é a menor unidade de conhecimento possível.

O primeiro apartamento que me hospedei na Alemanha foi reservado via Airbnb. Trata-se de um site revolucionário onde pessoas alugam suas casas para desconhecidos. Quando entrei no apartamento da Lisa, todas as coisas dela estavam lá: fotos, roupas, livros, DVDs, roupa de cama, produtos de limpeza e até comida. Ela e o namorado foram para a América do Sul (Peru e Equador) e alugaram a casa para mim com o intuito de custear parte da viagem. Nunca conheci a Lisa pessoalmente, trocamos e-mails e mensagens de celular. Quando cheguei em Berlim, a mãe dela me entregou as chaves do apartamento. Nos 10 dias que fiquei na casa da Lisa pude conhece-la através do seu apartamento e da troca de e-mails.

Em 10 dias comecei a montar um quebra-cabeça sobre o casal que morava ali. Lisa gosta de cozinhar, principalmente sobremesas. Já ganhou até um prêmio, de acordo com o troféu na cozinha. Gosta de comida asiática, de viajar, de Harry Potter, de picnics e pole dance. Sim, pole dance. Bem no meio da sala de estar tem um pole (aquelas barras verticais que se popularizaram nos bares de strip). O apartamento é luxuoso para os padrões alemães, e fica localizado em uma rua nobre no bairro mais tradicional da cidade. Lisa é de uma família tradicional, pelas poucas palavras que troquei com a mãe dela pude notar. Nenhum hotel poderia fornecer uma experiência tão autêntica quanto aquele apartamento.

Agora, voltando um pouco esta história, como eu cheguei até a Lisa? Fiz um cadastro no site e comecei a procurar apartamentos. Tive que escrever uma bio (uma mini biografia), colocar fotos, mandar documentos e pedir recomendações. Foram 3 tentativas até ser aceito por alguém. A cada tentativa ia aperfeiçoando o meu perfil online. Foi uma experiência única de vida. Como doeu ser rejeitado pela primeira vez, como fiquei feliz em ser aceito pela primeira vez.

 Foto: meu perfil no Airbnb.

Quando voltei ao site para procurar nosso segundo apartamento temporário, tudo foi mais fácil. O território era conhecido e eu já sabia o melhor caminho. Mandei uma mensagem para o Antonio, negociei o preço com desenvoltura e combinei todos os detalhes rapidamente. Deixamos nossas malas um dia antes na casa do Antonio, para poder fazer o check-out com calma da casa da Lisa. Deu tudo certo e na hora combinada a filha do Antonio estava aqui no apartamento para entregar as chaves. O apartamento fica em um lugar lindíssimo em um prédio fantástico.

A primeira experiência com o Airbnb abriu a minha cabeça. Tive que aprender novas habilidades, me colocar em situações desconfortáveis e conviver com todo tipo de insegurança. E como no circo, quando o acrobata se joga no vazio até ser pego pelo seu par, o mesmo deve ter passado com a Lisa ao deixar seu apartamento cuidadosamente decorado, com suas lembranças mais preciosas na mão de um estranho. Até dinheiro encontramos em uma armário da cozinha dela! Da mesma forma, eu contei com a seriedade dela para pagar adiantado o valor da estadia e contar com a casa dela como nosso primeiro paradeiro na Alemanha.

Estou lendo os Irmãos Karamazov. Mais um clássico para a lista!

Ampelmann

  
Hoje foi dia de passear por Berlim. O Berliner Dom (na foto) é a Catedral de Berlim e fica na Ilha dos Museus. É uma região muito bonita da cidade e concentra uma boa parte dos turistas que visitam Berlim.

Todas as ruas de Berlim são recheadas de história e até o semáforo é uma atração turística. Aqui quem avisa a hora de atravessar a rua é o Ampelmann.

O Ampelmann é um dos símbolos da Alemanha Oriental. Ele é o bonequinho do semáforo. Diferente do bonequinho utilizado em outros países e na Alemanha Ocidental, o Ampelmann usa chapéu.

  
Com a queda do muro de Berlim, os Ampelmännchen foram substituídos pelos bonequinhos ocidentais. Mas a população de Berlim não gostou da maneira que a memória da Alemanha Oriental estava sendo apagada e pediu o retorno deles. Em 1995 o Ampelmann voltou e hoje é o padrão utilizado em todos semáforos da cidade.

Mais do que isso, o Ampelmann virou um dos mascotes de Berlim e tem lojas de souvenir espalhadas pela cidade, além de cafés temáticos.

Smartphone

Minha vida está no smartphone. E não só a minha, mas como a dos milhares de sírios que que buscam asilo na Europa. É pelo WhatsApp que eles se comunicam, trocando informações sobre barreiras, traçando estratégias e recebendo notícias de quem ficou para trás. Em uma matéria veiculada aqui na Alemanha, os refugiados falavam que o smartphone era tão importante quanto a comida para garantir a sobrevivência.

Além do Skype, do WhatsApp, Facebook, Instagram e Twitter, eu ainda uso uma série de apps específicos para melhorar minha experiência na Alemanha.

 
Übersetzer – É o tradutor do Google. Ele faz tradução simultânea de tudo que é capturado pela câmera do celular em tempo real. Dá até para assistir TV com ele. Ele traduz as manchetes do jornal, por exemplo.

YouthHotSpot – o app tem uma lista de pontos de acesso à internet gratuitos. Pode ser muito útil para economizar o plano de internet do celular. O meu plano de celular aqui na Alemanha é de 500 Mb por mês  em 4G e, por isso, não posso exagerar.

Berlin Subway – o app indica as melhores rotas de metrô assim como apresenta o mapa do metrô com geolocalização.

Taxi.de – app para chamar táxi. O Uber aqui é bem popular e taxistas também usam o Uber. Desta forma, você pode pagar o táxi direto ao taxista ou via app.

Memrise – app de memorização de palavras. É possível escolher o idioma. Utiliza métodos mnemônicos.

Fahrinfo – este é o app oficial do órgão de transporte de Berlim. Ele informa horários e tarifas de todos os modais (ônibus, metrô, bonde e trem). Sugere rotas também.

Car2Go – é um sistema de compartilhamento de carros. Você localiza o carro no mapa, reserva e sai dirigindo. O aluguel é feito por minuto ou por hora de uso do carro. Quando não quiser mais o carro basta estacionar e trancar o carro.

LEO – é um dicionário alemão/outras línguas que possui também gramática, pronúncia e exercícios.

DW – é o app do canal Deutsche Welle. Eles também oferecem um curso de alemão gratuito no site.

Wortschatz – é um dicionário visual com exercícios.

Englisch – é um app de frases de inglês para alemão.

Wörterbuch – é o dicionário tradicional alemão/inglês.

Duolingo – é um curso completo de idiomas. Ele possui dezenas de idiomas e é bem divertido. Passo pelo menos 30 minutos por dia praticando alemão nele.

CityMaps2Go – mapa off-line do mundo inteiro. Uso este app em todas as minhas viagens. É uma mão na roda. Tenho também o Sygic com os mapas do mundo todo, mas o CityMaps2Go é mais rápido e prático pra quem está a pé.

E é por isso que o smartphone é o meu fiel companheiro aqui na Alemanha. Todos os posts deste blog foram escritos nele, inclusive.

As Internets

A tecnologia é determinante na História. Quando estive no Peru este ano pude observar a evolução do homem nas Américas. O desenvolvimento da agricultura fez com que o homem se fixasse em um local por longos períodos. O surgimento das cidades criou o conceito de fronteiras e desde então o mundo foi sendo ocupado e dividido.

Nos últimos anos a tecnologia vem alterando a dinâmica das fronteiras. Na década de 90 a Internet era uma rede mundial de computadores. Os buscadores listavam todas as páginas existentes sobre um determinado tema. A única restrição da Internet era a sua disponibilidade. O acesso era caro e lento.

Com a popularização da Internet e aumento exponencial do seu conteúdo, a Internet conheceu a sua primeira fronteira: os direitos autorais. Foi necessário implementar o controle da origem e do destino do conteúdo. Entre uma série de medidas, a Internet começou a reproduzir as fronteiras do mundo real através da geolocalização dos IPs.

Hoje, a Internet é uma experiência individual. Não temos mais uma rede mundial de computadores, mas milhões de redes personalizadas que eventualmente se entrelaçam. Quando um morador do Rio de Janeiro pesquisa a palavra pizza no Google, ele mostra uma lista de pizzarias na cidade, matérias nos jornais locais e nacionais e sites de referência na sua língua. A mesma pesquisa feita em outra cidade mostrará resultados diferentes.

Até aí tudo bem. Isto se chama relevância. Mas você já parou para pensar porque o Google entrega resultados tão relevantes? A resposta está no dinheiro. As empresas investem muito para ter um bom posicionamento no Google. Na verdade, existe uma profissão especializada nisso. É o Consultor SEO (Search Engine Optmization).

O que temos hoje é uma Internet dividida em países pelas fronteiras dos direitos autorais e subdividida em classes de acordo com a posição do site na página de buscas.

E toda esta explicação foi só para dizer que a Internet que eu uso aqui na Alemanha não tem absolutamente nada a ver com a que eu conhecia no Brasil. Muitos vídeos brasileiros são bloqueados por restrição de direitos autorais e minhas pesquisas no Google sempre mostram sites alemães primeiro. Mesmo que eu busque feijão, por exemplo. Segue o resultado do Google no meu celular:

  

Karim

Hoje perdemos um colega de classe. O meu colega sírio foi para a Suécia atrás de melhores condições. Abdullah, o estudante iraquiano, explicou que ele não tinha conseguido vaga no programa para os  refugiados e, por isso, resolveu tentar na Suécia. O próprio Abdullah, que é iraquiano, tentou asilo na Finlândia, mas foi deportado de volta para a Alemanha.

Karim, o menino sírio, tem apenas 16 anos e estava aqui na Alemanha sozinho. Quando o conheci, automaticamente pensei que ele estava com a família. Mas o pai ainda está em Damasco. A mãe conseguiu ir para a Jordânia. Nas quase duas semanas de convivência com ele, pude notar seu comportamento juvenil, suas inseguranças e mesmo sem saber da sua vida pessoal, foi possível perceber que se tratava de alguém traumatizado. A guerra parece tão distante na TV, mas quando ela senta ao seu lado na sala de aula as coisas mudam de figura.

A situação do Abdullah não é diferente. Ele tem 17 anos e está sozinho aqui. Os pais estão em Bagdá e ele claramente está em uma situação de estresse extremo. Ele também não conseguiu o status de refugiado. Pior do que isso, ele não tem direito aos programas de incentivos oferecidos aos sírios.

Dois adolescentes vagando pelo mundo, atrás de uma vida melhor. O curso que eu estudo oferece bolsas e arrecada doações. O mesmo acontece em escolas e empresas. Mas o que fazer com o trauma que essas pessoas são submetidas?

É importante lembrar que muitos dos refugiados são de classe média, comerciantes, universitários, advogados e médicos. Damasco sempre foi uma das capitais mais importantes do Oriente Médio e também uma das mais bonitas. De repente tudo vira escombros.

O Tartamudo de Charlottenburg

Temos um teto definitivo! Assinamos hoje o contrato de aluguel do apartamento. Faremos nossa mudança no dia 30/09. O apartamento fica a 1km do que estamos atualmente e é ainda mais perto do palácio de Charlottenburg.

A estrela vermelha aponta a localização do apartamento definitivo.  O pin azul mostra a localização do apartamento atual (ao lado do lago Lietzensee). O palácio fica na grande área verde na parte superior do mapa.

Desde o primeiro dia em Berlim, eu me senti bem em Carlottenburg. É um bairro calmo e cheio de história. Fica perto do Ku’damm, tem parques, praças, lagos e o Palácio de Charlottenburg com os seus jardins.

Não foi fácil conseguir um apartamento aqui. Algumas pessoas procuram por meses. Fomos em alguns apartamentos que tinham 10 candidatos ao mesmo tempo entregando formulários de interesse.

O prédio é novo e tem elevador. O apartamento já é mobiliado. Seguem algumas fotos da fachada:

Agora eu sou o Tartamudo de Charlottenberg!

Fahrkarte, bitte!

Depois de 15 dias andando de metrô, finalmente fui abordado por um fiscal! Só agora sinto que o investimento no passe mensal valeu a pena. Afinal de contas, de que vale andar dentro da lei se ninguém sabe!

Dienstag

Terça-feira é dia de feira na Wittenbergplatz. A praça fica uma estação depois da que eu queria sair. E foi bom ter errado o caminho. Descobri um excelente lugar para comprar peixe!

Fui em uma loja de departamento na região também. A KaDeWe tem 7 andares e me lembrou as lojas do Japão. O último andar é uma praça de alimentação e supermercado de luxo. Mas nada tinha uma cara tão boa quanto as comidas do Japão.

Passei por um shopping no Ku’damm e qual não foi minha surpresa ao encontrar um Kaiser’s. Explico, Kaiser’s é um supermercado local. É uma excelente dica para o turista com um orçamento mais apertado ou para qualquer um que não queira pagar €1,50 em uma garrafa d’água de 500 ml. O Kaiser’s vende a mesma água gelada por €0,54.

A aula de alemão foi excelente como sempre. Não poderia ter escolhido um curso melhor. Com três horinhas de aula por dia e mais uma hora de estudo, estou vendo que vou longe!

A curiosidade do dia foi a palavra Hell. Já tinha visto ela antes, mas confesso que não tinha procurado o seu significado no dicionário. Sabia, porém, que não significava inferno como acontece em inglês. Hoje na aula, estávamos falando de cores (Farben) e de repente a palavra Hell começou a aparecer ao lado das cores. Aprendi que Hell significa claro, como em hellblau (azul claro).

Por último, li o ensaio de Sêneca sobre a brevidade da vida. Estou tentando colocar os pensadores clássicos em dia.