A certeza cobra um preço alto demais. Primeiro porque exclui todas as outras opções e, consequentemente, finda a busca. Sendo assim, é possível dizer que a certeza encerra o assunto e, da mesma forma, determina seus limites. E são estes limites da certeza que fazem a vida confortável. Quando já conhecemos o caminho a ser feito, ou ainda, quando conhecemos o melhor caminho a ser feito e podemos nos gabar da nossa certeza, mostrar para todo mundo que somos os senhores daquela situação.
Quanto mais eu leio, viajo, conheço pessoas e lugares, mais desconfortável fica a vida. Não existe uma certeza sequer que fique de pé se você se der ao luxo de questioná-la. O que vivemos é muito pouco comparado com o tempo que passamos vivos. Boa parte do tempo gastamos a vida para os outros, para as coisas ou para nada. E nada é o mais próximo que existe da certeza. Porque não provoca e não alimenta, é a menor unidade de conhecimento possível.
O primeiro apartamento que me hospedei na Alemanha foi reservado via Airbnb. Trata-se de um site revolucionário onde pessoas alugam suas casas para desconhecidos. Quando entrei no apartamento da Lisa, todas as coisas dela estavam lá: fotos, roupas, livros, DVDs, roupa de cama, produtos de limpeza e até comida. Ela e o namorado foram para a América do Sul (Peru e Equador) e alugaram a casa para mim com o intuito de custear parte da viagem. Nunca conheci a Lisa pessoalmente, trocamos e-mails e mensagens de celular. Quando cheguei em Berlim, a mãe dela me entregou as chaves do apartamento. Nos 10 dias que fiquei na casa da Lisa pude conhece-la através do seu apartamento e da troca de e-mails.
Em 10 dias comecei a montar um quebra-cabeça sobre o casal que morava ali. Lisa gosta de cozinhar, principalmente sobremesas. Já ganhou até um prêmio, de acordo com o troféu na cozinha. Gosta de comida asiática, de viajar, de Harry Potter, de picnics e pole dance. Sim, pole dance. Bem no meio da sala de estar tem um pole (aquelas barras verticais que se popularizaram nos bares de strip). O apartamento é luxuoso para os padrões alemães, e fica localizado em uma rua nobre no bairro mais tradicional da cidade. Lisa é de uma família tradicional, pelas poucas palavras que troquei com a mãe dela pude notar. Nenhum hotel poderia fornecer uma experiência tão autêntica quanto aquele apartamento.
Agora, voltando um pouco esta história, como eu cheguei até a Lisa? Fiz um cadastro no site e comecei a procurar apartamentos. Tive que escrever uma bio (uma mini biografia), colocar fotos, mandar documentos e pedir recomendações. Foram 3 tentativas até ser aceito por alguém. A cada tentativa ia aperfeiçoando o meu perfil online. Foi uma experiência única de vida. Como doeu ser rejeitado pela primeira vez, como fiquei feliz em ser aceito pela primeira vez.
Quando voltei ao site para procurar nosso segundo apartamento temporário, tudo foi mais fácil. O território era conhecido e eu já sabia o melhor caminho. Mandei uma mensagem para o Antonio, negociei o preço com desenvoltura e combinei todos os detalhes rapidamente. Deixamos nossas malas um dia antes na casa do Antonio, para poder fazer o check-out com calma da casa da Lisa. Deu tudo certo e na hora combinada a filha do Antonio estava aqui no apartamento para entregar as chaves. O apartamento fica em um lugar lindíssimo em um prédio fantástico.
A primeira experiência com o Airbnb abriu a minha cabeça. Tive que aprender novas habilidades, me colocar em situações desconfortáveis e conviver com todo tipo de insegurança. E como no circo, quando o acrobata se joga no vazio até ser pego pelo seu par, o mesmo deve ter passado com a Lisa ao deixar seu apartamento cuidadosamente decorado, com suas lembranças mais preciosas na mão de um estranho. Até dinheiro encontramos em uma armário da cozinha dela! Da mesma forma, eu contei com a seriedade dela para pagar adiantado o valor da estadia e contar com a casa dela como nosso primeiro paradeiro na Alemanha.
Estou lendo os Irmãos Karamazov. Mais um clássico para a lista!
