O frio está chegando

Em 40 dias na Alemanha já tive 3 endereços. A sala da Lisa era especialmente bem decorada, com um violão na parede, bola de basquete na estante, cheia de fotos e detalhes, um lar muito aconchegante. O apartamento do Antonio tinha uma localização imbatível, na beira do lago e em um prédio super elegante. A casa do Antenor ainda é um “work in progress”. Por enquanto só tem um porta-retratos e uma vela perfumada decorando a casa.

Mas apesar de ainda não ser um lar, o nosso apartamento já está bem confortável. Uma boa cama faz toda a diferença na vida. Hoje liguei a calefação pela primeira vez. Estava fazendo 1°C grau pela manhã, mas dentro de casa devia estar uns 15°C. Foi só um teste. Em 1 hora a temperatura já tinha subido uns 3°C graus. As janelas do apartamento são duplas e possuem uma excelente vedação, o que ajuda a manter o apartamento muito mais quente que a rua.

Apesar do frio, o dia hoje foi de muito sol! Saímos depois do almoço para uma caminhada e o dia estava realmente bonito e a temperatura chegou aos 9°C graus. Amanhã a temperatura deve chegar a -1°C grau. Para quem gosta do frio e sabe de suas vantagens: nada de mosquitos, nada de suor, posso andar bem arrumado, beber e comer as coisas mais gostosas e quentinhas! Viva!

  

O Muro

  
Hoje o passeio foi pela parte oriental de Berlim. Começamos pelo East Side Gallery, o maior pedaço contínuo do muro de Berlim que ainda está de pé.

  
A parte oriental é a preferida dos jovens, com bares e baladas alternativas. A região também abriga dezenas de galerias e a maior parte da população estrangeira que vive aqui.

Almoçamos um macarrãozinho de arroz com vegetais em um restaurante vietnamita do shopping e passeamos pelo centro da cidade. Estava acontecendo uma grande manifestação contra um acordo transatlântico entre EUA e União Europeia.

Pizza de batata

Sempre gostei de frequentar os mesmos lugares. É uma maneira de conhecer pessoas e se sentir em casa longe de casa. Aqui em Charlottenburg todos os lugares são extremamente convidativos e fica difícil escolher um só.

Para comer a melhor fatia de pizza eu vou na Gusto Giusto. Por € 2 você leva um pedacinho da Itália para casa. Eles fazem pizzas retangulares e vendem somente em fatias. Antes de servir, eles cortam em tiras. Vai aí uma curiosidade sobre o brasileiro: somos o único povo no mundo que come pizza em fatia com garfo e faca. Na Alemanha, eles vendem pizza com recheio de batata. Mas não é só aqui. A primeira vez que fui enganado pela pizza de batata foi no Japão. Comprei uma achando que era de catupiry. Aliás, já fui enganado aqui também. Tem um doce nas padarias aqui que é idêntico a um brigadeiro. Mas na verdade é um bolinho feito de massa de torta e rum. É tão bom quanto a pizza de batata.

As porções de batata frita aqui costumam ser temperadas com curry. Eles adoram curry em tudo. No mercado tem ketchup com curry, sal com curry, linguiça com curry, salada com curry e assim vai. E não são os imigrantes que consomem curry, são os locais mesmo. Eu não sou muito fã. Até gosto, mas acho enjoativo.

Fast-food aqui é kebab. O espeto grego faz sucesso na Europa inteira. Um kebab custa € 3,50, em média. É uma refeição de grande porte com pão, carne, salada e batata frita. Eles esquentam o pão na chapa, passam iogurte e enchem de recheio. A batata frita vai dentro do sanduíche. Eu comi uma vez só desde que cheguei em Berlim. É bem pesado.

Bom mesmo são as barraquinhas de schnitizel com salada de batata. Esse é o verdadeiro tesouro gastronômico da Alemanha. Isso e a cerveja! Como ainda está rolando a Oktoberfest na Alexanderplatz, eu de vez em quando tomo um chopp na praça depois do curso de alemão.

Gosto muito de ir nos Bio-Markets também. São mercados de produtos orgânicos de produtores locais. É possível encontrar de tudo. Vinhos, queijos, iogurtes, massas, frutas e legumes. Comprei uva passa para o meu arroz à grega em um Bio-Market. Este arroz com a salada de batata com iogurte formam uma combinação imbatível. Só de pensar já fico com água na boca!

A ficha caiu

A Venezuela é a pior economia do mundo, segundo o FMI. Até aí, nada demais. O problema é a matéria do Financial Times.

http://www.ft.com/fastft/403141/venezuela-contract-10-this-year-worst-world-imf

A matéria começa com a seguinte frase: “Esqueça Brasil, Ucrânia, Grécia e Rússia. A coroa para a pior economia do mundo pertence à Venezuela.”

Ainda não tinha me dado conta que o Brasil faz parte da lista dos piores países do mundo. A ficha caiu agora.

O país atravessa o período mais sombrio que eu tenho lembrança. Felizmente a minha memória é curta e eu ainda sou jovem (?). Somos a grande vergonha mundial e nem os alemães, que em geral são respeitosos, conseguem evitar as piadas sobre a situação do Brasil.

Vendo a série Narcos no Netflix percebo que mesmo no pior momento histórico da Colômbia, eles ainda estavam em uma situação melhor do que a do Brasil de hoje. Isto porque na época de Pablo Escobar, os traficantes davam duas opções às autoridades: plata o plomo (prata ou chumbo). E alguns preferiram a última.

Conversei com um ucraniano hoje no curso de alemão e em um determinado momento ele mostrou a cidade-natal dele no mapa, Krim, abriu um sorriso e disse: “A Ucrânia agora é Rússia!”. Ficou claro para mim depois desse diálogo porque fazemos parte da mesma lista. As opções do povo ucraniano não são muito melhores do que as nossas.

Rio Spree

Como toda cidade europeia, Berlim também tem um rio que cruza o centro da cidade. Hoje, depois da minha corrida pelos jardins do palácio, fiz um pequeno vídeo do rio. O dia estava muito nublado e ventando, mas achei interessante mesmo assim. O rio passa pelos fundos do palácio de Charlottenburg.

O rio Spree tem 400 quilômetros de extensão. O passeio de barco pelo rio pode ser uma boa opção para conhecer Berlim.

Intercâmbio cultural

A minha turma deste mês tem uma coreana e uma polonesa. Eu conheço a cidade natal das duas: Seul e Cracóvia. Conheço também um pouquinho do idioma das duas e um pouco da gastronomia também.

Essas histórias de vida não tem preço. Contei para a coreana a minha experiência de comer sorvete com pipoca salgada e ela morreu de rir. Eles adoram misturar coisas muito doces com coisas muito salgadas. Falei para ela que tinha ido pra Busan e ela ficou impressionada também. Ela não conhece nenhum estrangeiro que tenha ido para Busan. Eu confirmei para ela que realmente não vi nenhum ocidental durante a minha estadia em Busan.

Pegamos o trem juntos para Charlottenburg e continuamos a conversa falando sobre soju, a bebida típica da Coreia do Sul, muito parecida com o sakê. Ela me disse que tinha trazido algumas garrafas com ela e me ofereceu uma. Eu educadamente recusei. Os japoneses e coreanos sempre levam presentes para o país em que vão morar. Eles já se planejam levando em consideração que irão fazer novas amizades e precisarão presentear com algo especial.

A polonesa está aqui há dois anos. Conversamos sobre a Cracóvia, a cidade do Papa João Paulo II. Ela levou alguns chocolates poloneses para a aula e distribuiu para a turma. Uma curiosidade da língua alemã: bonbon em alemão quer dizer bala (o doce).

A minha colega francesa recomendou um restaurante mexicano. Chama-se Santa Maria. No fim de semana eu vou experimentar! Em Berlim, é possível encontrar comida de qualquer lugar do mundo, mas a comida latina não faz muito sucesso. A exceção são as casas de carnes argentinas. Tem uma na esquina aqui de casa, inclusive.

Como muito pouco na rua por aqui. Uma pizza de vez em quando, um pão doce raramente. Faço a festa no mercado, onde sempre experimento alguma coisa nova.

Corrida

Corri 2 quilômetros no parque hoje. Foi minha primeira vez. Fui be devagar, sem exageros. O meu preparo físico até que não está tão ruim.

  
Demorei pouco mais de 15 minutos para correr os 2 quilômetros. Andei mais 45 minutos depois. Não consegui dar a volta no parque correndo, que é o meu objetivo inicial, mas está ótimo.

A temperatura de 14° graus foi muito agradável para fazer o exercício. O dia está bem nublado aqui e o vento já está ficando mais gelado. Dizem que no inverno, o sol em Berlim é igual lâmpada de geladeira, ilumina mas não aquece.

Amanhã pretendo repetir a dose! Devagar e sempre.

Boas-Vindas

Para registro: ao  fazer o cadastro como morador de Berlim na Prefeitura, ganhamos um vale de 50 Euros. Hoje trocamos o vale por dinheiro. Isto que é presente de boas-vindas!

Hoje abri a minha conta no banco (só a Sarah tinha feito até agora) e a minha gerente falou que eu vou ganhar uma máquina de café Nespresso. Dentro de duas semanas eu conto se deu certo.

Espero que o pessoal continue generoso assim!

Quanto vale?

Existe um efeito colateral da desvalorização do Real que nao vejo ninguém discutir. Venho pensando na dificuldade de comparar preços, controlar gastos e fazer pagamentos que o brasileiro enfrenta.

Todo mundo anda com uma calculadora na bolso, ela se chama celular. E ninguém tem vergonha de puxar a calculadora para ver quanto são treze menos sete. Neste universo de analfabetos funcionais, não podemos esquecer que a matemática nunca foi o ponto forte do brasileiro.

Neste contexto, fica claro para mim que o brasileiro terá cada vez mais dificuldade de controlar seus gastos a medida que o Real vale cada vez menos. Isso sem considerar o efeito devastador da inflação.

Com a moeda forte, como é o caso do Euro, os valores unitários dos produtos dificilmente chegam aos dois dígitos. Desta forma, é mais fácil fazer contas de cabeça ou contar nos dedos os gastos. Com uma moeda de 2 euros você compra qualquer coisa na rua. É possível, por exemplo, fazer escolhas mais conscientes de consumo. Com € 2 é possível comer uma fatia de pizza em uma boa pizzaria. Com  € 1,50 você compra uma garrafa de 300 ml de Coca-Cola na máquina. Resultado: ninguém toma Coca-Cola por aqui.

E a mesma teoria vale para os serviços mensais. O plano de celular custa € 9,90/mês, a TV a cabo custa 9,90/mês e assim vai. Fica fácil de calcular os gastos no fim do mês.

No caso dos bens de consumo, a moeda forte permite economizar nos pequenos gastos para comprar algo grande. Um microondas custa € 50 ou 25 fatias de pizza. Viu como é fácil fazer conta com números pequenos? Enquanto isso no Brasil, as pessoas só conseguem controlar o valor da prestação que pagam, quando muito.

A cultura alemã de consumo consciente também está diretamente ligada à forma de pagamento. As lojas aqui raramente aceitam cartões de crédito. A Ikea, loja de móveis e decoração, não aceita nenhum cartão. Restaurantes também não aceitam. Assim, é comum ver pessoas sacando € 500 no caixa do banco. E aí entra outro problema no Brasil: a segurança. Andar com quase R$ 2.500,00 no bolso no dia-a-dia não é uma ideia muito boa.

A moeda forte abre caminho para o uso de máquinas para pagamentos. Tudo pode ser pago com moedas. Reduz também sensivelmente o custo no transporte de valores, tendo em vista que o mesmo caixa automático utilizado no Brasil, por exemplo, armazena quase 5 vezes menos dinheiro que na Europa.
A moeda fraca abre espaço para a inflação, para o endividamento e deixa ainda mais distante a educação financeira para o povo. O país que não tem uma moeda forte deixa o seu cidadão em desvantagem para competir em um mundo globalizado.

A desvalorização da moeda é um ingrediente clássico nas receitas mais tradicionais para reverter uma recessão. Mas como todo remédio, resolve um problema e cria outro.

Montag

A semana passada não foi fácil, com a mudança e todo o trabalho que ela traz. A segunda-feira começou bem mais agradável. Tomei uma xícara de chá verde e fiz uma boa caminhada de manhã. Arroz integral, legumes e salada de batata para o almoço e um bom livro para a viagem de metrô até o curso. A aula foi ótima e na volta li mais um pouco do meu livro (ainda estou lendo Irmãos Karamazov). Depois do lanche, hora de fazer o Hausaufgaben! E antes de dormir um pouquinho de Netflix.

O frio está chegando e domingo deve ser o primeiro dia do outono em que os termômetros marcarão zero grau. Na rua de casa tem um restaurante de sopas bem interessante. O supermercado também vende kits de legumes para sopa. Para quem está na rua, sempre tem uma máquina de café por perto para esquentar a barriga. O berlinense gosta muito de cachecóis e se agasalha até a orelha no menor sinal de frio. O vento gelado, porém, não intimida os ciclistas. Quando o assunto é bicicleta, todo mundo me garante que ela é um meio de transporte para o ano inteiro. Veremos. Vale dizer que aqui a bicicleta pode entrar no metrô sem problema, em uma integração perfeita entre diferentes modais.