Quanto vale?

Existe um efeito colateral da desvalorização do Real que nao vejo ninguém discutir. Venho pensando na dificuldade de comparar preços, controlar gastos e fazer pagamentos que o brasileiro enfrenta.

Todo mundo anda com uma calculadora na bolso, ela se chama celular. E ninguém tem vergonha de puxar a calculadora para ver quanto são treze menos sete. Neste universo de analfabetos funcionais, não podemos esquecer que a matemática nunca foi o ponto forte do brasileiro.

Neste contexto, fica claro para mim que o brasileiro terá cada vez mais dificuldade de controlar seus gastos a medida que o Real vale cada vez menos. Isso sem considerar o efeito devastador da inflação.

Com a moeda forte, como é o caso do Euro, os valores unitários dos produtos dificilmente chegam aos dois dígitos. Desta forma, é mais fácil fazer contas de cabeça ou contar nos dedos os gastos. Com uma moeda de 2 euros você compra qualquer coisa na rua. É possível, por exemplo, fazer escolhas mais conscientes de consumo. Com € 2 é possível comer uma fatia de pizza em uma boa pizzaria. Com  € 1,50 você compra uma garrafa de 300 ml de Coca-Cola na máquina. Resultado: ninguém toma Coca-Cola por aqui.

E a mesma teoria vale para os serviços mensais. O plano de celular custa € 9,90/mês, a TV a cabo custa 9,90/mês e assim vai. Fica fácil de calcular os gastos no fim do mês.

No caso dos bens de consumo, a moeda forte permite economizar nos pequenos gastos para comprar algo grande. Um microondas custa € 50 ou 25 fatias de pizza. Viu como é fácil fazer conta com números pequenos? Enquanto isso no Brasil, as pessoas só conseguem controlar o valor da prestação que pagam, quando muito.

A cultura alemã de consumo consciente também está diretamente ligada à forma de pagamento. As lojas aqui raramente aceitam cartões de crédito. A Ikea, loja de móveis e decoração, não aceita nenhum cartão. Restaurantes também não aceitam. Assim, é comum ver pessoas sacando € 500 no caixa do banco. E aí entra outro problema no Brasil: a segurança. Andar com quase R$ 2.500,00 no bolso no dia-a-dia não é uma ideia muito boa.

A moeda forte abre caminho para o uso de máquinas para pagamentos. Tudo pode ser pago com moedas. Reduz também sensivelmente o custo no transporte de valores, tendo em vista que o mesmo caixa automático utilizado no Brasil, por exemplo, armazena quase 5 vezes menos dinheiro que na Europa.
A moeda fraca abre espaço para a inflação, para o endividamento e deixa ainda mais distante a educação financeira para o povo. O país que não tem uma moeda forte deixa o seu cidadão em desvantagem para competir em um mundo globalizado.

A desvalorização da moeda é um ingrediente clássico nas receitas mais tradicionais para reverter uma recessão. Mas como todo remédio, resolve um problema e cria outro.