Chave na mão

Hoje foi um dia especial! Fui na minha primeira Oktoberfest. Tomei uma caneca de chopp de 1 litro. Não consigo imaginar como as alemãs andam com 6 canecas cheias pela festa servindo o pessoal.

   
 Mas a melhor parte do dia foi quando pegamos as chaves do nosso apartamento. Depois de passar 28 dias vivendo de Airbnb, finalmente temos um teto definitivo na Alemanha. Só agora desarrumamos as malas e começamos a arrumar o nosso novo lar.

Estou exausto! Mas estou feliz!

Choque cultural

Disclaimer: este post está recheado de generalizações que normalmente se provam equivocadas, cheias de preconceito e sem embasamento suficiente.

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Entender a língua de um país é só um pequeno passo para entender a sua lógica. Estava estudando hoje e, apesar de entender exatamente o que estava escrito em alemão, eu não entendia qual era a tarefa que deveria ser executada.

Isso aconteceu diversas vezes comigo no Japão, quando me deparei com situações em que o idioma não era a barreira e sim a lógica aplicada.

A lógica alemã usa um pensamento estruturado com pouca ou nenhuma flexibilidade e focado em eficiência. Além disso, eles não toleram erros.

A forma de pensar alemã é muito diferente da americana, por exemplo. Americanos são mais impulsivos e gostam de riscos. O alemão se orgulha de falar sempre o que pensa enquanto o americano prefere o caminho da boa convivência no lugar da sinceridade. No mundo dos negócios os dois países também não se entendem muito bem. No fundo, o alemão parece não gostar do estilo americano de vida, dos excessos e da ineficiência. Mas enquanto o mundo inteiro (incluindo a Alemanha) estiver tomando café no Starbucks, acessando o Google em um iPhone e vendo a Netflix, os EUA não precisam se preocupar em serem eficientes. A capacidade do americano de transformar ideias em negócios é infinita.

O povo alemão é mais eficiente, tem uma vida melhor, um país melhor e até produtos melhores que os EUA. A Alemanha lembra o Japão em vários aspectos, com a diferença de que o alemão não é consumista. A principal semelhança é que nenhum dos dois povos tolera erros.

Mas é preciso esclarecer algo. O alemão é um povo muito simpático e amigável. São sinceros e tem um grande coração. Não tive nenhum problema aqui até agora, não fui repreendido por ninguém e com certeza já cometi inúmeros erros. Este nível de cobrança vem da maneira como são criados, mas eles sabem que outras culturas possuem outros parâmetros e respeitam isso.

Club-Mate

Nas escolas, faculdades e no mercado a bebida do momento é o Club-Mate. Os alemães parecem gostar muito desta planta exótica da América do Sul. Lembra muito o bom e velho Matte Leão, um pouco mais fraco e feito com água com gás.

  
“O mate é uma planta da floresta usada na América do Sul há séculos”, diz o texto. “O sabor da cafeína e do tanino tornam a bebida única”, completa.

Ikea

Hoje foi dia de ir na Ikea. Trata-se de uma loja de móveis e decoração, que inspirou centenas de outras pelo mundo, como Tok&Stok e Etna.

A Ikea é uma empresa sueca e está presente em 47 países. Seus móveis são famosos por serem fáceis de montar, de qualidade razoável e preços baixos.

Mas o grande diferencial da Ikea não está no design sueco ou na preocupação com o meio ambiente. A diferença está nas almôndegas!

O fundador da loja descobriu que as pessoas começavam a ir embora quando ficavam com fome. Ele notou também que as pessoas ficavam felizes depois de comer e compravam mais. Não teve dúvida, começou a vender comida dentro da loja.

A Ikea vende hoje em torno de 1 bilhão de almôndegas por ano nas suas 360 lojas pelo mundo. O prato com doze almôndegas custa 5 euros e a versão com batatas custa 5,50.

E foi exatamente isso que aconteceu comigo hoje. Estávamos passeando pela loja e fiquei com vontade de ir embora. Paramos no restaurante, comemos as almôndegas e ficamos mais 2 horas comprando. É um prato quente e que satisfaz. Não tem cara de fast-food e é servido em um ambiente super agradável.

Freitag

Terminamos a noite passeando pelo bairro, vendo o movimento dos restaurantes asiáticos da Kantonstraße, a loja da Apple no Ku’damm e a igreja Kaiser-Wilhelm. Ela foi alvo de bombardeios em 1943 e se transformou em um memorial. Os berlinenses apelidaram a igreja de dente oco (Hohle Zahn).

  

Wie Spät ist es?

A língua alemã está sempre pregando uma peça na gente. Hoje foi dia de descobrir que falar a hora aqui é super “lógico” somente na cabeça deles. Veja o nonsense:

Halb Fünf (meia cinco) – 4:30

Zehn vor Halb Fünf (dez antes meia cinco) – 4:20

Zehn nacht Halb Fünf (dez depois meia cinco) – 4:40

Tive que confessar à professora que eu perdi um pouco de respeito pela Alemanha depois disso e que, se fosse eles, não contava essa maluquice para ninguém.

Ela falou que eu deveria fazer uma petição solicitando que a norma fosse alterada. Eu sou a favor de que Halb Fünf, por exemplo, deveria ser 5:30 e não 4:30. E esse lance de 10 para as 4:30 também não faz o menor sentido.

Vou lá falar com a mamãe Merkel na primeira oportunidade sobre este assunto! É assim que os alemães, e agora também os refugiados, chamam carinhosamente a Chanceler, de Mutti.

Human – Uma breve análise 

Faça 40 perguntas para 2.020 pessoas e você terá 80.800 respostas. O documentário Human reúne cerca de 400 respostas, isto é, 0,5% de tudo que Yann Arthus-Bertrand ouviu.

Ao longo dos três volumes fica clara a voz do documentarista e como ele escolheu cuidadosamente as respostas para montar sua narrativa. Mas isso não diminui a obra, apenas a torna autoral. E o próprio Yann admite isto em entrevistas.

As paisagens do filme são espetaculares e valem um prêmio por si só. A música também é marcante e se funde perfeitamente com as imagens. Os dois elementos tem o papel de permitir que o espectador reflita entre um grupo de entrevistas e outro.

O mundo é um lugar muito interessante e, confesso que, vendo o documentário me deu vontade de viajar e conhecer cada um dos lugares filmados. Queria viver uns 500 anos para poder conhecer mil lugares diferentes e ficar em cada um por pelo menos seis meses. Aprender um pouco da língua, da cultura e das pessoas de cada canto desse mundo.

Eu conheço quase 40 países em 4 continentes e sinto que conheço muito pouco. Conheço um pouco da humanidade também e penso que com o devido distanciamento somos como qualquer outro ser vivo no Universo. Não consigo diferenciar o que muitos chamam de racional no homem ou muito menos de consciência.

Ao observar cuidadosamente um animal, seja um cavalo, um porco ou uma vaca é possível identificar personalidades únicas. Ordenhe duas vacas todo dia e você vai descobrir que cada uma tem um temperamento, gostos pessoais e maneiras de se expressar diferentes.

Mas o que tudo isso tem a ver com o documentário Human? Vendo as entrevistas não consegui parar de pensar como a humanidade é incapaz de gerir sua própria existência e como outras espécies estão a nossa frente. Dificultamos demais uma tarefa simples como viver.

As fronteiras e as religiões devastaram a raça humana. A vida, que por si só já é trágica, é um verdadeiro martírio para bilhões de pessoas. 

Mas é possível ter uma visão otimista também. O conceito de país deverá se extinguir em poucos séculos. Com a queda dos idiomas (já anunciada pelos gurus da tecnologia) nos restará somente a divisão pela crença. Na verdade, este processo de queda das fronteiras tende a acentuar a divisão religiosa, como já podemos notar.

E aí vamos ter que torcer para que os deuses das diferentes religiões entrem em um acordo sobre quem é o povo escolhido, quem é fiel e quem é infiel. Até lá vamos continuar matando e morrendo em nome dele. E viva a humanidade!

Equinócio

  
Hoje foi dia de equinócio. Tirei esta foto indo para o mercado. Não coloquei nenhum filtro nem efeito, o céu estava realmente diferente.

A partir de agora os dias começam a ficar mais curtos e o frio aumenta dia-a-dia. A paisagem ganhará o tom vermelho do outono.

As estações do ano ajudam a gente a entender as etapas da vida e a necessidade de renovação.

Caminhada no parque

Hoje caminhei um pouco pelo Lietzensee-Park e resolvi fazer um pequeno vídeo no iPhone. É impressionante como em poucos minutos é possível produzir e compartilhar um vídeo na Internet.

Agora eu vou estudar um pouco e fazer meu Hausaufgaben, também conhecido em português como “dever de casa”.

Padrões de consumo

Os padrões de consumo na Alemanha e na Europa em geral são completamente diferentes dos padrões brasileiros. Isto porque o brasileiro persegue o padrão americano de consumo e não tem consciência de que os recursos naturais são finitos.

O europeu não toma banho todo dia, a louça não é lavada em água corrente e ninguém lava calçada, obviamente. A água é cara e a energia então é caríssima. As pessoas usam velas em casa, raramente acendem lâmpadas durante o dia e todos os produtos são super eficientes.

Escovar os dentes três vezes por dia é outra peculiaridade brasileira. O brasileiro é o único povo no planeta que escova os dentes depois do almoço. Quando um americano vê um brasileiro tirando a escova de dente da bolsa depois de almoçar, mesmo sem ter intimidade com a pessoa, não consegue se segurar e pergunta se ela tem algum problema na boca. É sério. Lavar a louça em água corrente também é um hábito quase que exclusivo do brasileiro.

Tomar banho todo dia aqui na Europa é considerado sinal de doença, geralmente de pele. Mas eles acham completamente normal ter CC, o famoso cheiro de corpo. Aqui não é tão ruim quanto na França, mas também não é moleza. Ontem mesmo estava falando com uma mulher alemã e a cada passo que ela dava na minha direção eu dava um para trás. E não é coisa de pobre não. Você entra no elevador com aquela mulher cheia de joia e roupa chique, loira dos olhos azuis, e aquele CC. É triste, mas muito ecológico!

A comida aqui também é regrada. Fui no açougue outro dia e pedi um bife. Um bife. O açougueiro me perguntou quanto eu ia querer daquele bife. A minha resposta foi “Alles”. Aqui é possível comprar qualquer coisa em porção individual. O alemão prefere comprar pouco, mas comprar bem. Eles preferem comprar meio bife orgânico pelo mesmo preço de um bife transgênico inteiro.

O mesmo vale para eletrônicos e outros produtos. A professora de alemão vai todo dia com a mesma roupa, mas usa um casaco de altíssima qualidade. O produto chinês aqui não tem vez. O táxi é Mercedes não por obrigação, mas porque eles acreditam no melhor custo/benefício a longo prazo.

Conversando com os alemães descobrimos que eles têm uma relação muito saudável com dinheiro. Eles preferem ter mais tempo livre do que dinheiro. Em algumas empresas o expediente do escritório acaba mais cedo na sexta-feira. Muitos empregos são de 20 horas semanais. Mas durante estas 20 horas semanais eles trabalham o equivalente a 80 horas de um funcionário brasileiro. Esta é a famosa eficiência alemã.