O tempo é uma maneira imperfeita de medir a vida. Um mês pode ser muito tempo e um dia muito pouco dependendo do que estamos fazendo. Chegamos na Alemanha há um mês, mas parece que foi ontem que desembarcamos daquele Boeing 777-200.
No Brasil, o empregado tem direito a um mês de férias a cada ano trabalhado. O funcionário-padrão prefere tirar vinte dias e vender dez. E o funcionário exemplar não tira férias. Ele tem a certeza de que é extremamente importante para a companhia e que, se ficar fora por um mês, a empresa entrará em colapso durante a sua ausência.
Nesse sentido, eu sempre compartilhei a visão alemã de trabalho. Fazer hora extra por aqui não é bem visto por patrões. É sinal de falta de eficiência. Não conseguir tirar férias demonstra que a pessoa não consegue organizar a sua agenda e tem, na verdade, medo de perder o emprego. Mas este não é o tema deste post.
Quero falar sobre o nosso primeiro mês aqui na Alemanha. Uma coisa é certa, não foi um mês de férias. Em 30 dias tivemos que mergulhar de cabeça na cultura e na língua alemã, procurar um apartamento para morar, abrir conta em banco, comprar chip de celular e aprender a andar pela cidade. Parece tudo muito simples, mas não é.
Chegamos aqui numa terça-feira à noite somente com uma mochila nas costas. Fomos no mercado e compramos macarrão e molho. A bagagem só chegaria na tarde do dia seguinte. Um mês depois temos uma cozinha abastecida de comida, nossas roupas no armário, uma cama de casal de verdade em um studio com o nosso nome escrito no interfone do prédio. É uma vitória, pequena, mas digna de celebração!
Ainda estou perdido no idioma, mas já conheço mais da língua alemã do que poderia sonhar na minha vida. Faço compras, ando de metrô, vou para o meu curso de alemão, conheço pessoas e frequento o comércio do bairro. Uma das coisas que eu mais gosto é de andar a pé pela cidade a qualquer hora. E nada melhor do que caminhar para conhecer Berlim. E além de tudo emagrece! Estou com 102 quilos agora, faltando apenas 2 quilos para a minha meta inicial.
Ainda temos muito o que fazer e o segundo mês não vai ser moleza. Mas o importante é ter paciência e foco. Todo dia aqui é um aprendizado. E aquela máxima de que só sei que nada sei nunca foi tão verdadeira para mim. Quanto mais eu aprendo, mais eu descubro que não sei nada mesmo.
E quanto mais penso na vida mais claro fica para mim que o objetivo da vida é compartilha-la. E compartilhar conhecimento é uma das formas mais interessantes de passar a vida. A beleza do conhecimento é que é possível aprender enquanto se ensina e vice-versa indefinidamente, já que o conhecimento não tem fim. É possível expressar este pensamento de mil formas, mas no fim o que vale é o aprendizado.
No documentário Human, o ex-Presidente do Uruguai fala sobre viver com sobriedade. Mujica afirma que quem não é feliz com pouco também não é feliz com muito. Ele não tem nada contra ter muito, pelo contrário, mas deixa bem claro que gastamos tempo demais consumindo e não damos atenção ao principal que é viver. Temos que levar uma bagagem leve nessa vida, para podermos viver melhor. O discurso dele é, na verdade, tão somente uma releitura do pensamento de Sêneca sobre a vida. E mesmo não sendo uma teoria complexa, sua simplicidade fez com fosse relevante 2.000 anos depois de ser concebida.
Mas eu estou tergiversando novamente. O assunto aqui é Alemanha. Nesse mês aqui eu tive tempo para mim. Para ler, escrever, caminhar, pensar, estudar e, enfim, viver. É um luxo, eu sei. Como diz a música do John Lennon, eu estou aqui sentado só olhando as rodas girando, não estou mais no carrossel. E estou feliz assim.
“O que é a felicidade além da simples harmonia entre o homem e a vida que ele leva.” – Albert Camus.