Angela Merkel

A Chanceler da Alemanha foi eleita a Personalidade do Ano pela revista Time. A Mutti (mamãe), como ela é conhecida na Alemanha, é uma figura polarizadora por aqui. Algo muito parecido com o que o Obama simboliza nos EUA.

Mas diferente do Presidente americano, a Mutti tem mais poder e influência na Alemanha e em toda a União Europeia. Sua postura durante a crise da Grécia e o recente episódio com os refugiados demonstrou sua coragem. Certa ou errada, ela tomou decisões em um mundo em que a maioria prefere ficar em cima do muro.

A história da Chanceler é surpreendente. A família morava na Alemanha Ocidental quando o país foi dividido. Seu pai então resolveu se mudar para a área oriental para criar a filha, fazendo o caminho inverso de milhões de alemães. De origem polonesa, Angela adotou o sobrenome do primeiro marido, Merkel, com quem ficou casada por 4 anos na década de 70. Formou-se em Física e fez doutorado em Química Quântica. Ela adora cozinhar e gosta de ir ao supermercado fazer compras. Paga sempre em dinheiro, como todo alemão. Ela tem medo de cachorros (foi mordida por um em 1995) e adora futebol. Estava, inclusive, no Maracanã na final da Copa do Mundo em que a Alemanha se sagrou campeã.

Angela Merkel é a cara de Berlim. Uma cidade com um pé no Ocidente e outro no Oriente. Ela não tem vergonha de consumir, mas não tolera ostentação. Gosta de estar na moda, mas não acredita em grifes. Valoriza o trabalho, mas não o emprego.

Berlim é uma cidade muito à frente de seu tempo. O alemão em geral é conservador e provinciano, mas o berlinense (não os que nasceram aqui, mas o que escolheram a cidade como lar) valoriza a diversidade. E é por esse motivo que Berlim tem um pouco de Tóquio, Nova Iorque e Londres. Um lugar em que você pega o metrô com uma senhora de 70 anos de cabelo azul e calça de couro.

Mas o resto da Alemanha não é assim e o ódio pela Chanceler só cresce desde que ela levantou a bandeira dos refugiados. Muita gente preferia ter um Chanceler mais conservador e movimentos neo-nazistas são populares em diversas cidades do país, mas felizmente não em Berlim.

A xenofobia é um efeito do terrorismo. Muita gente fala dos refugiados como uma ameaça, mas nunca conversou com um sírio ou com um iraquiano. O medo vem da ignorância e da generalização.

Merkel é a personalidade da década, na minha opinião. Ela conseguiu nos últimos dez anos, com seu jeito discreto e simples, reverter boa parte da imagem duvidosa que a Alemanha deixou no século XX. Ao contrário do Brasil, os alemães tiveram a sorte de serem governados por um de seus melhores cidadãos. Acima de tudo, Merkel é uma servidora pública que nunca se deslumbrou com o poder, apenas cumpriu o papel que lhe foi confiado.