Em dois meses aqui tive que a reaprender a andar, falar e viver. Cada dia desde então tem sido de intenso aprendizado. Hoje já chego nos lugares e falo meu alemão macarrônico, faço perguntas e quando não entendo já falo “Wie, bitte?” (Como, por favor?). O segundo mês foi o primeiro de adaptação, na verdade. Foi quando começamos a ter uma rotina e a interagir com o “German Way of Life”.
Foram dias difíceis também, dias em que o frio e o tempo chuvoso deixaram nosso humor um pouco cinza. Foi bom para aprendermos a valorizar os dias de sol e para nos prepararmos para o inverno. Um bom agasalho, uma bebida quente e um filme no Netflix serão fundamentais. Tivemos que investir um pouquinho na casa para deixá-la mais confortável e aconchegante. Com algumas idas à Ikea, decoramos cada cantinho do apartamento.
De longe, continuo acompanhando a situação no Brasil. Ela parece ainda mais desanimadora para quem está vendo de fora. Mas tudo na vida passa e acredito que mais cedo ou mais tarde as coisas se ajeitam. Ou não. O que mais me entristece no Brasil é a falta de punição. Prevalece a ideia de que o roubo compensa. Crimes acontecem todos os dias em Berlim, mas a polícia prende os bandidos e mesmo os pequenos crimes viram notícia de jornal. Outro dia um bandido puxou a bolsa de uma velhinha e saiu correndo. Foi preso pouco depois e o produto do roubo foi recuperado. O mesmo vale para a corrupção. O Deutsche Bank está envolvido em um grande escândalo de fraude, assim como a Volkswagen. Em ambos os casos, os envolvidos estão sendo investigados e já foram afastados de seus cargos. Os alemães estão envergonhados com a situação. A Europa inventou a corrupção e seria no mínimo ingênuo imaginar que ela não continuaria existindo por aqui. O problema é que a corrupção atravessou o oceano, mas a justiça e as punições não embarcaram nas caravelas.
A barreira do idioma ainda é grande, mas não é intransponível. Como qualquer povo, o alemão gosta quando o estrangeiro tenta falar a sua língua. É um sinal de respeito. O alemão não é muito polido e, como disse minha colega francesa, as crianças não são muito bem educadas (ainda assim, 1.000 vezes melhor que no Brasil). Isto se reflete em adolescentes rebeldes e adultos sem tato social. Eles gostam de bater boca e tem até um capítulo no meu livro do curso de alemão sobre as técnicas de bater boca. O alemão diz qualquer besteira com um tom de verdade absoluta. Cabe à outra parte duvidar da afirmação.
Eles gostam desta rotina de discordar para depois concordar (aceitar). Às vezes, parece grosseria da parte deles. No início a gente acredita que eles estão sempre certos e não discute. Depois de um tempo aqui você descobre que tem que questionar tudo. E nunca pode fazer cara de bonzinho. Eles agem assim com o Professor da Universidade, com amigos e colegas. Não é nada pessoal.
A comida daqui foi a parte mais fácil. O alemão come bem e, para os padrões europeus, a comida é barata. Os produtos em geral são de boa qualidade e é possível ter uma dieta bem variada. Mercados turcos e asiáticos estão por toda parte e é possível comprar ingredientes do mundo inteiro sem sair do bairro.
Independente do rumo político do Brasil, o futuro do país depende da segurança. A falta de segurança faz com que o brasileiro seja um sobrevivente. Esta guerra tem que acabar um dia. O salto na qualidade de vida aqui está em poder andar pela rua, sair à noite e fazer planos sem ter que se preocupar em ser morto, assaltado ou sequestrado. Ontem vi crianças andando sozinhas por Dresden pedindo doces no Halloween. Vi também algumas adolescentes fantasiadas andando de metrô à noite. Isto no Brasil viraria uma noite de terror de verdade, infelizmente.
