Falar sobre assuntos que não dominamos deveria ser mais difícil, teoricamente. Ao passo que assuntos em que temos completo domínio deveriam ser mais fáceis. Mas a realidade não costuma se dar bem com a teoria.
Quanto mais conhecemos sobre um assunto, mais temos a capacidade de relativizar e criar contrapontos para qualquer linha de argumentação. É possível dizer que, ao dominar um determinado tema, somos capazes de defender ou atacar qualquer ponto de vista. Temos razões suficientes para concordar ou discordar de qualquer afirmação.
Por isso, falar sobre viajar é um tema um pouco arenoso para mim. Minha experiência me diz que posso falar confortavelmente sobre o assunto, mas ao mesmo tempo me diz que tenho muito mais a aprender. Posso concordar sobre quase tudo que já foi escrito sobre o assunto, assim como posso discordar de quase tudo.
A verdade é que nasci viajando. Sou filho de pais cariocas, mas nasci na Bahia. Sou turista na cidade em que nasci. Fui criado no Rio de Janeiro dos anos 90, e hoje me sinto um pouco deslocado quando visito o Rio. A cidade evolui constantemente no caos. Morei dois anos e meio em Santa Catarina e nove anos em Curitiba. Neste meio tempo visitei dezenas de países, passei uma temporada nos Estados Unidos, um mês de França e agora estou há quase 4 meses na Alemanha.
Aos quinze anos saí do país pela primeira vez. Fui para o Chile. Aquela viagem me marcou pela experiência de estar pela primeira vez sozinho em um lugar estranho. Supostamente, eu deveria ter feito uma excursão de esqui em Valle Nevado. Na realidade, vi o meu guia de viagem no dia em que chegamos no Chile e no dia que fomos embora. Durante sete dias, aprendi a esquiar, saltei de asa-delta e me aventurei pela vida noturna de Santiago.
Aos vinte anos partiria para a grande viagem da minha vida: um intercâmbio de trabalho em uma estação de esqui na Califórnia. Foram quatro meses trabalhando em uma loja de aluguel de esquis. Lá conheci minha esposa, conheci melhor a cultura americana, aperfeiçoei a língua inglesa e pude curtir o inverno esquiando em um lugar paradisíaco.
Ao fim do intercâmbio, por sugestão da Sarah, resolvi fazer um mochilão pela Europa. Foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. Naquele período, senti de fato a solidão e as incertezas da juventude. Enquanto conhecia aqueles países fantásticos, tive tempo para refletir e pensar sobre a vida. Lembro de andar de madrugada por Bruxelas depois de passar a noite conversando com um barman romeno. Ou quando fui por três dias seguidos em um show de improvisação em um teatro de Amsterdam. Cada dia daquela viagem foi especial e ainda lembro de cada detalhe.
Aos vinte e cinco anos, faria mais uma viagem inesquecível pela Europa. Desta vez com a minha noiva. Passamos um mês em Grenoble, uma cidade universitária na França. Conheci uma França completamente diferente daquela que tinha visitado quatro anos antes. Ao passar um mês em uma cidade, você começa a entender um pouco da cultura e do dia-a-dia. O fato de entender o idioma também foi fundamental para compreender melhor o país. Mas o que fez esta viagem especialmente divertida foi o orçamento. Quando decidimos rodar a Europa em 2006, a grana estava bem curta e nosso orçamento só dava para um albergue e um pão com queijo. Além de perder mais de dez quilos em dois meses, a gente ainda se divertia procurando comida barata em cidades caras, como Genebra. No final, voltamos ao Brasil com o know-how de como viajar sem dinheiro.
Em 2009, voltamos a Europa em uma viagem mais confortável, ficando em hotel e experimentando a gastronomia de cada país. Em 2010, fizemos uma viagem de luxo pelos Estados Unidos em que eu aluguei um Camaro vermelho e viajei mais de 2.000 quilômetros pela costa leste. Em 2011, fomos para a Austrália e Nova Zelândia e passamos o Ano Novo na Opera House em Sydney.
Em 2013, fiz a viagem mais surpreendente da minha vida. Conhecemos a Ásia. Em cada país que chegávamos, ficava maravilhado. O atmosfera de Bangkok é indescritível e o ritmo é simplesmente enlouquecedor. Em Cingapura conhecemos a materialização do planejamento perfeito. Em Hong Kong, me senti em uma Nova Iorque de 2025. A cada cidade me surpreendia mais. Macau com seus cassinos e Kuala Lumpur com sua mistura de civilizações. As lindas praias da Tailândia me obrigaram a rever o conceito de paraíso. Mas foi no Vietnã que eu descobri um universo paralelo, onde as pessoas ainda vivem uma vida simples e encontram a felicidade nas pequenas coisas.
Entre uma viagem e outra ainda encontramos tempo para voltar aos Estados Unidos e visitar outros países mais próximos, como a Colômbia. A Colômbia foi uma surpresa extremamente agradável. Um país rico, bonito e com um grande potencial turístico.
Em 2014 fizemos nossa viagem para a Coreia do Sul e Japão. Nessa viagem, descobrimos porque a Coreia é o país que possui o maior número de marcas em evidência mundialmente. Um país que tem Hyundai, Kia, Samsung, LG e outras marcas merece uma visita. O Japão, por outro lado, é o retrato de um civilização que já atingiu o seu ápice e que agora vive um lento e confortável declínio. Ainda sim, a mentalidade japonesa merece um estudo detalhado. Eles são um exemplo de dedicação, organização e foco (e se assemelham muito aos alemães nesses sentido).
Passei o Réveillon de 2015 no Deserto do Atacama. O Chile é um exemplo do potencial da América do Sul. Um país que está 100 ou 200 anos a frente do Brasil, mesmo sendo o país mais estreito do mundo. Ao atravessar a fronteira com a Bolívia, tive a oportunidade de conhecer a natureza na sua forma mais bruta. Gêiseres, vulcões em atividade e um interminável deserto de sal. Como ficar indiferente perante a força da natureza? Vivemos em um planeta realmente fantástico!
Entre uma viagem a Las Vegas, um jantar em Hanói, um hotel de sal na Bolívia e, mais recentemente, uma escalada pela montanha de Huyana Picchu, em Machu Picchu, comecei a pensar sobre o conceito de viagem. Afinal de contas, o que é viajar? O que eu aprendi, por exemplo, durante o dia que passei na Bratislava, capital da Eslováquia? Será que eu conheço, de fato, a Eslováquia? É claro que não.
E nesse sentido, a experiência de estar há quase quatro meses em Berlim, me faz pensar na minha primeira visita de cinco dias pela cidade. Quando visitei a capital da Alemanha em 2009, pude conhecer as avenidas amplas, o peso da História, a organização e a eficiência alemã. Mas só depois de três meses aqui, entendo o espírito avant-garde da cidade e a fixação alemã pela burocracia. O mundo do alemão é um quadrado firmemente delimitado por certezas absolutas. E uma dessas certezas é de que o alemão sabe o que é melhor para ele e para a sociedade. Por este motivo, discordar de um alemão é uma das tarefas mais exaustivas que um ser humano pode experimentar. Eles tem certeza absoluta de tudo e discordam de qualquer opinião diferente. Ponto.
Mas o assunto deste post é viagem. Vale a pena ficar 5 dias em cada lugar ao longo de um ano e conhecer 70 países ao longo de um ano? Esta resposta eu tenho na ponta da língua: não. Muita gente visita 30 ou 40 países ao longo de um ano, o que significa ficar 10 dias em cada lugar. É válido? Sim, tudo é válido. Mas para conhecer um país de fato, você precisa de mais tempo. Talvez seis meses, partindo do princípio que você fala o idioma local. Mas o que fazer então? Uma pessoa precisaria de 50 anos para conhecer 100 países nesse ritmo.
Para sair deste dilema insuperável, uma das alternativas é dedicar 6 meses para cada região. Por exemplo, 6 meses no sudeste asiático, 6 meses na Oceania, 6 meses na África, 6 meses na América do Sul, 6 meses na América do Norte, 6 meses no Oriente Médio, 6 meses na Ásia, 6 meses na Europa Ocidental, 6 meses no leste europeu e 6 meses na América Central. Neste modelo de viagem, seriam necessários 5 anos para conhecer o mundo. Um pouco mais factível.
Mas a pergunta que se faz agora é: por que conhecer o mundo? O que há de tão interessante longe de casa? O mundo é como um museu vivo. É como entrar no Louvre e não ficar com vontade de passar 3 meses lá dentro. A vida é esse grande passeio e que, nesse momento, nos dá a oportunidade de conhecer este planetinha em que nascemos. Quem sabe no futuro não poderemos explorar outros planetas e galáxias com a mesma facilidade que viajamos de avião hoje?
Entender esta corrida desesperada da humanidade rumo ao nada é uma experiência alucinante. Somos 7 bilhões de lemmings perseguindo a sobrevivência e a perpetuação da espécie. Seres movidos pelo instinto que se consideram de alguma forma superiores pela capacidade raciocínio. E quanto mais viajamos menos certezas temos e mais vontade de conhecer novos lugares temos.
A tecnologia facilita muito o mundo do viajante. Serviços como o Airbnb permitem que o turista viva na casa de alguém por alguns dias e interaja mais com a realidade local. Fazer compras no supermercado, estudar, trabalhar, ver TV, ler o jornal, andar pela rua – isto constitui uma experiência completa em um país. Visitar pontos turísticos e tirar fotos é como olhar pelo buraco da fechadura. Somos meras testemunhas do que está acontecendo atrás daquela porta.
Viajar é como fazer uma tatuagem na mente. A cabeça fica marcada por aquela experiência. É como ler e escrever um livro ao mesmo tempo. E aprender um novo idioma, faz com que se descubra uma maneira completamente nova de pensar também. Todas as certezas vão sumindo e o mundo vai ficando cada vez mais interessante.