Estava passeando pela Internet quando encontrei um vídeo de um historiador chamado Leandro Karnal. Nunca tinha ouvido falar deste senhor, mas o tema do vídeo me chamou atenção: o jeitinho brasileiro.
No vídeo, o historiador explica que o jeitinho brasileiro é uma maneira de negociar as regras. “É como a lei do Rei, que todos acatam, mas ninguém obedece.” E um dos símbolos mais contundentes do jeitinho é o diminutivo. É o “só mais um pouquinho”, o “rapidinho” e o próprio “jeitinho”. E ele compara o jeitinho brasileiro como uma constante negociação das regras em contraponto à sociedade organizada europeia como um lugar com pouca liberdade individual.
Em um momento brilhante, ele conclui como o jeitinho e a organização se diferenciam. Diz ele: ” Com o jeitinho brasileiro prevalece o indivíduo sobre o grupo e na organização prevalece o grupo sobre o indivíduo.” E é exatamente como vejo a vida aqui na Europa. A sociedade funciona bem e dentro dela nos sentimos respeitados e satisfeitos. Porém, não existe espaço para espontaneidade ou grandes desvios para o bem e para o mal.
Continuei lendo sobre o assunto em outros sites e encontrei alguns dados que demonstram como as sociedades mais avançadas possuem maiores índices de suicídio. Em uma sociedade organizada em que tudo funciona, o peso da infelicidade pessoal diante da satisfação coletiva é muito mais forte. Todos os motivos para a infelicidade recaem na vida pessoal e ao comparar o nível de sucesso da sociedade, as pessoas se sentem muito fracas e sozinhas.
Resumindo os dois pontos levantados acima, podemos dizer que o indivíduo alcança maiores índices de felicidade no caos, assim como se sente menos pressionado em um ambiente hostil. Se o brasileiro consegue ser feliz com toda a violência, corrupção e desorganização, ele se sente um herói. Se o europeu se sente infeliz mesmo com o Estado provendo saúde, educação, cultura, transporte e até mesmo incentivo financeiro, ele é um desastre de ser humano e deveria se matar.
E aí entra um ponto levantado pelo historiador em outro texto que encontrei na Internet. Leandro diz que dentre as suas preferências na história da humanidade estão os Estados Unidos: “Eu tenho um profundo interesse na sociedade norte-americana, nas suas contradições, na sua cultura, que produziu uma cultura mundial para o bem e para o mal. Problemas e soluções absolutamente interessantes”.
Os EUA encontraram o perfeito equilíbrio entre o caos e a organização. Ao valorizar a cultura da não-inteligência, o herói Forrest Gump, o fast-food e Hollywood eles conseguiram eliminar a seriedade europeia sem cair na terra sem-lei. Uma sociedade que se considera a melhor do mundo, mas sabe rir dela mesmo como ninguém.
A Alemanha é o ápice da organização europeia e, quiçá, mundial. Berlim é a capital e também a cidade menos alemã do país. Esta falta de seriedade do berlinense é uma luz no fim do túnel para a Europa e para o mundo. O modelo americano funcionou muito bem no século XX, mas talvez o berlinense tenha a receita para a sociedade perfeita do século XXI.
Para isso, a receita está em aumentar cada vez mais a mistura de culturas e backgrounds, deixando a cidade cada vez mais atrativa para os imigrantes. É possível ver o grau de desenvolvimento de uma cidade pela quantidade de pessoas de fora que ela atrai. Assim foi com o Rio de Janeiro até a década de 70 e assim é com São Paulo hoje em dia. O mesmo serve para Nova Iorque, Londres ou Paris.
Bagunçar um pouco a Alemanha é um desafio possível. Agora me pergunto: seria possível deixar o Brasil um pouco mais sério? Não, seremos para sempre o país do futuro. A Lei de Gerson está no nosso sangue. O Brasil vai continuar sendo o país com as pessoas mais felizes do mundo com a sociedade mais fracassada da humanidade.