Foto: Hanói, Vietnã (2013) por Antenor.
Andando pelas ruas de Hanói comecei a sentir o mundo novamente. Estava nublado e de tempos em tempos chovia um pouco. O céu cinza, os prédios baixos e sem cor, as pessoas andando pelas ruas com roupas simples. E a única coisa que se destacou na paisagem foi um sorriso.
Quantos sorrisos passam por nós todos os dias e não notamos? Quanto esforço fazemos para nos mantermos confortavelmente dormentes?
Vivemos em uma constante explosão de sensações. Explosões que nos deixam dormentes, como a cegueira temporária que ocorre após um clarão. E é perfeitamente compreensível a busca pela dormência. É a maneira mais rápida de se alcançar a interrupção do sofrimento. Sofrimentos naturais como o envelhecimento e cotidianos como as nossas insatisfações.
Mas tudo na vida é uma troca e a dormência cobra o seu preço. Perdemos o sorriso, o vento que bate nas folhas da árvore, o movimento da água no lago e a nuvem branca que deixa o céu azul ainda mais bonito.
E foi viajando pelo mundo que eu percebi que a melhor parte da viagem é o compromisso com o momento. Momentos em que vivemos plenamente o presente e aproveitamos cada gota que a vida oferece. Como quando mergulhei na Austrália e enquanto observava os peixes e corais, minha cabeça estava 100% ali e pude viver alguns minutos naquele mundo fantástico.
A Bolívia me mostrou uma beleza bruta que até então eu não conhecia. A Terra no seu estado mais primitivo, com vulcões, géiseres, lagoas coloridas e desertos de sal. Mas o que realmente me impressionou foi ver que ali era possível observar o tempo passar, a Terra nascer das suas próprias entranhas e envelhecer até se tornar uma rocha inerte. Até um dia nascer novamente.
Andando pelas ruas de Berlim comecei a conviver mais comigo mesmo e a aproveitar melhor a minha companhia. E a luz que cegava já não é tão forte. Já sinto o vento no rosto e ouço as folhas brincando nas árvores. E aos poucos mais sorrisos surgem no meio da multidão.
Ja, Genau!