Estudo com uma sul-coreana muito gente boa chamada Abi. Ela está sempre bem-humorada e fala com todo mundo. Outro dia estávamos esperando o início da aula e começamos a conversar.
A professora também estava participando da conversa e isso nos obrigava a falar somente em alemão. Fora da aula, o alemão só é a primeira língua entre estudantes quando umas das partes não fala inglês. Isto porque com o nível de conhecimento que eu tenho, as conversas ficam lentas e limitadas em alemão.
E foi no meio desta conversa gaguejada entre um brasileiro e uma coreana que a professora apontou para o braço da coreana e perguntou “O que você tem tatuado no pulso?”. E ela respondeu “Leucht”.
Entre as risadas da coreana e o olhar estupefato da professora, fiquei me divertindo com a história daquela tatuagem. A minha colega tatuada se chama Abi, na verdade este é o nome ocidental dela. Em coreano o nome dela significa “Iluminada”. Ela pegou o nome dela em coreano, traduziu para o alemão e fez a tatuagem “Leucht”.
Foi só depois que ela começou a estudar alemão que ela descobriu que não tinha tatuado “Luz” (Licht em alemão) e sim Leucht, que significa “Luminária” no pulso. Mas ela mesmo se emendou e disse que luminária é luz e que também ilumina.
A professora então, daquele jeito alemão, disse que Leucht era usado somente junto com o nome da marca de luminária. Por exemplo, uma luminária da Bosch seria uma Bosch-Leucht. Ela continuou dizendo que dava para consertar a tatuagem colocando um “en” no final e transformando em Leuchten, que significar Iluminar em alemão.
E foi aí que a Abi olhou para a professora, deu uma risada bem solta e disse “Não professora, Leucht é luz e é o meu nome em alemão agora”.
E eu ali observando aquele diálogo e lembrando dos dias que passei na Coreia, fiquei pensando no abismo cultural daquela conversa. Como aquela coreana recém-chegada na Alemanha tinha desconstruído a lógica do idioma que sequer tinha aprendido e feito o que seria impossível para a professora de alemão que dominava cada aspecto da sua língua materna.
A Coreia do Sul foi um dos lugares mais surpreendentes que eu estive na minha vida. Um lugar que tem templos fantásticos e marcas como Samsung, LG, Hyundai e Kia. Uma tradição e uma cultura própria, apesar da proximidade com a China e Japão.