Arbeit macht frei

  

Esta frase está na porta de vários campos de concentração. A tradução livre seria “O trabalho liberta”.

Hoje fomos até a cidade de Oranienburg, a pouco mais de 20 minutos de trem regional de Berlim. Lá fica o campo de concentração de Sachsenhausen. Alemães, dinamarqueses e pessoas de outras nacionalidades foram aprisionadas, torturadas e mortas. Ao total, 35.000 pessoas foram executadas na câmara de gás ou torturadas até a morte. O local possuía também uma prisão da Gestapo, para onde eram levados aqueles que tentaram se opor ao regime.

  

Esta pequena maquete acima foi feita em uma caixa de charutos por um ex-prisioneiro. Cada barracão recebia até 400 prisioneiros, que dividiam um banheiro e um lavatório que podia ser usado somente uma vez pela manhã e uma vez pela noite.

 

Tivemos a oportunidade de conhecer a história do resgate dos prisioneiros escandinavos durante nossa visita à Dinamarca. O governo sueco providenciou Ônibus Brancos, como ficaram conhecidos, com enfermeiras e médicos a bordo para resgatar as pessoas que já estavam com a saúde muito debilitada. Muitos morreram de fome e de frio durante o rigoroso inverno da região.

  

Ao total, mais de 200.000 pessoas foram confinadas em Oranienburg. Muitos artistas e políticos foram aprisionados, entre eles o ex-Primeiro-Ministro da Noruega Trygve Bratteli.

  

O impacto de entrar em um campo de concentração é sempre muito forte. Este é o primeiro que visitamos na Alemanha. A magnitude de Auschwitz consegue ser ainda mais apavorante.

Infelizmente o mundo não mudou nada de 1945 para cá. As pessoas continuam pregando a exclusão e a segregação de indivíduos, nacionalidades e etnias. Aqui na Europa e mesmo nos EUA, muitos defendem a construção de muros e novos campos de concentração para os refugiados e imigrantes.

Estamos eternamente condenados a cometer os mesmos erros do passado. Os mesmos interesses continuarão manipulando milhões de pessoas a acreditarem na superioridade de seu país, etnia ou religião. O truque mais velho do livro é a sensação de pertencimento que um grupo dá. Nos sentimos mais fortes e protegidos quando estamos em grupo e, sem pensar duas vezes, passamos a acreditar nas divisões impostas pelas convenções.

Os animais também se dividem em grupos para garantir território e alimento. Estamos, portanto, apenas reproduzindo este comportamento primitivo. E dificilmente vamos sair desse estágio de evolução tão cedo.

Mas se em um mundo dividido em grupos, o equilíbrio já é praticamente impossível, em um mundo sem grupos estaríamos em uma permanente guerra entre indivíduos. Mas sem um exército para defender seus ideais, os homens teriam que se contentar em negociar sua sobrevivência ou eliminar pessoalmente os inimigos. Seria impossível terceirizar o trabalho sujo em um mundo individualista. Se quiséssemos comer carne, por exemplo, teríamos que matar o animal.

A partir do momento que terceirizamos nossos interesses, colocamos um preço nas nossas vontades e o valor que estamos dispostos a pagar é o preço que colocamos em nós mesmos. Em troca de proteção, poder, território e alimento, passamos a defender os interesses de um grupo. Pronto! Voltamos aos campos de concentração, aos muros e às guerras.

Nao existe equilíbrio na sociedade porque não existe equilíbrio no indivíduo. Temos uma guerra acontecendo permanentemente dentro da gente. E mesmo se conseguíssemos fazer parte de um único grupo, se todos se considerassem somente terráqueos, ainda assim continuaríamos nos matando. Porque, no fim das contas, toda bondade e toda maldade do mundo cabe dentro de cada um.