6 meses

Acordar, dormir, comer, beber, sair, estudar, trabalhar, viajar, ir ao shopping e no supermercado, ver um filme no cinema, comprar roupa, pagar contas, alugar um apartamento, fazer plano de saúde, se registrar na Prefeitura, tirar visto, abrir conta em banco, comprar móveis, decorar a casa, conhecer gente do mundo inteiro, conhecer novos países, conhecer novos pratos, aprender novas receitas, ver o outono e as folhas caindo, sentir o frio do inverno com neve, ver TV em outro idioma, aprender um novo idioma, andar de metrô, de trem e de ônibus, passar sufoco, raiva, alegria, tristeza, orgulho e medo. Isto é um pouco do que se vive em 6 meses em um novo país. Tudo é novidade, tudo é um desafio.

Sempre achei a vida muito curta para se viver uma vida só. A intensidade de uma mudança de país é revigorante. A gente precisa se reinventar todo dia e descobrir o que verdadeiramente move a gente. A parte mais difícil da mudança não é o choque cultural nem o idioma, é descobrir quem nós somos quando decidimos começar novamente. Questionamos não só nossos valores e nossas necessidades, mas também como nos vestimos, o que comemos, e como gastamos o tempo que temos.

Estes 6 meses foram gastos com muito aprendizado. Aprendi a respeitar mais o meu corpo, comendo melhor e me exercitando. Aprendi a respeitar mais outras culturas, tendo contato com pessoas do mundo inteiro. Não existe limite para aprender, cada pessoa tem uma importante lição para compartilhar. Nós colocamos os limites na nossa mente com nossos preconceitos, arrogância e, principalmente, com nossos medos.

O medo pode nos proteger do perigo, mas não podemos deixar ele nos paralisar. Se o seu trabalho não está bom, sua relação já não vale a pena, você está insatisfeito com seu país, com a sua família ou com o tempero da comida, não perca tempo reclamando. Planeje, pondere e tome uma ação.

No filme Bridge of Spies, o ator Mark Rylance interpreta um espião soviético que é preso em solo americano. Seu advogado, interpretado por Tom Hanks, fica impressionado com a calma com que o espião lida com a situação. Mesmo podendo ser condenado a morte, o espião não se desespera. Ao ser questionado várias vezes por Hanks se ele não estava nervoso ou com medo do que poderia acontecer, o espião sempre respondia: Would it help? (Isto ajudaria?) Provavelmente não.

Fazendo um balanço desses 6 meses, eu diria que cada segundo valeu a pena. Me sinto mais leve (literalmente, estou com 89 kg) e mais íntegro. À medida que o tempo passa, consigo entrar em contato com algumas partes do que sou e que não tinha mais acesso. Continuo querendo mais e mais, mas atualmente quero aproveitar melhor o caminho e não me preocupar somente em chegar no destino. Na verdade, chego à conclusão que o destino estava bem no começo e que, se eu soubesse ou pudesse, não teria corrido tanto para chegar ao fim.