{"id":905,"date":"2015-12-16T20:26:35","date_gmt":"2015-12-16T20:26:35","guid":{"rendered":"http:\/\/tartamudo.antenor.com.br\/?p=905"},"modified":"2015-12-17T09:31:29","modified_gmt":"2015-12-17T09:31:29","slug":"viagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tartamudo.antenor.com.br\/index.php\/2015\/12\/16\/viagem\/","title":{"rendered":"Viagem"},"content":{"rendered":"<p>Falar sobre assuntos que n\u00e3o dominamos deveria ser mais dif\u00edcil, teoricamente. Ao passo que assuntos em que temos completo dom\u00ednio deveriam ser mais f\u00e1ceis. Mas a realidade n\u00e3o costuma se dar bem com a teoria.<\/p>\n<p>Quanto mais conhecemos sobre um assunto, mais temos a capacidade de relativizar e criar contrapontos para qualquer linha de argumenta\u00e7\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel dizer que, ao dominar um determinado tema, somos capazes de defender ou atacar qualquer ponto de vista. Temos raz\u00f5es suficientes para concordar ou discordar de qualquer afirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso, falar sobre viajar \u00e9 um tema um pouco arenoso para mim. Minha experi\u00eancia me diz que posso falar confortavelmente sobre o assunto, mas ao mesmo tempo me diz que tenho muito mais a aprender. Posso concordar sobre quase tudo que j\u00e1 foi escrito sobre o assunto, assim como posso discordar de quase tudo.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que nasci viajando. Sou filho de pais cariocas, mas nasci na Bahia. Sou turista na cidade em que nasci. Fui criado no Rio de Janeiro dos anos 90, e hoje me sinto um pouco deslocado quando visito o Rio. A cidade evolui constantemente no caos. Morei dois anos e meio em Santa Catarina e nove anos em Curitiba. Neste meio tempo visitei dezenas de pa\u00edses, passei uma temporada nos Estados Unidos, um m\u00eas de Fran\u00e7a e agora estou h\u00e1 quase 4 meses na Alemanha.<\/p>\n<p>Aos quinze anos sa\u00ed do pa\u00eds pela primeira vez. Fui para o Chile. Aquela viagem me marcou pela experi\u00eancia de estar pela primeira vez sozinho em um lugar estranho. Supostamente, eu deveria ter feito uma excurs\u00e3o de esqui em Valle Nevado. Na realidade, vi o meu guia de viagem no dia em que chegamos no Chile e no dia que fomos embora. Durante sete dias, aprendi a esquiar, saltei de asa-delta e me aventurei pela vida noturna de Santiago.<\/p>\n<p>Aos vinte anos partiria para a grande viagem da minha vida: um interc\u00e2mbio de trabalho em uma esta\u00e7\u00e3o de esqui na Calif\u00f3rnia. Foram quatro meses trabalhando em uma loja de aluguel de esquis. L\u00e1 conheci minha esposa, conheci melhor a cultura americana, aperfei\u00e7oei a l\u00edngua inglesa e pude curtir o inverno esquiando em um lugar paradis\u00edaco.<\/p>\n<p>Ao fim do interc\u00e2mbio, por sugest\u00e3o da Sarah, resolvi fazer um mochil\u00e3o pela Europa. Foi uma das experi\u00eancias mais marcantes da minha vida. Naquele per\u00edodo, senti de fato a solid\u00e3o e as incertezas da juventude. Enquanto conhecia aqueles pa\u00edses fant\u00e1sticos, tive tempo para refletir e pensar sobre a vida. Lembro de andar de madrugada por Bruxelas depois de passar a noite conversando com um barman romeno. Ou quando fui por tr\u00eas dias seguidos em um show de improvisa\u00e7\u00e3o em um teatro de Amsterdam. Cada dia daquela viagem foi especial e ainda lembro de cada detalhe.<\/p>\n<p>Aos vinte e cinco anos, faria mais uma viagem inesquec\u00edvel pela Europa. \u00a0Desta vez com a minha noiva. Passamos um m\u00eas em Grenoble, uma cidade universit\u00e1ria na Fran\u00e7a. Conheci uma Fran\u00e7a completamente diferente daquela que tinha visitado quatro anos antes. Ao passar um m\u00eas em uma cidade, voc\u00ea come\u00e7a a entender um pouco da cultura e do dia-a-dia. O fato de entender o idioma tamb\u00e9m foi fundamental para compreender melhor o pa\u00eds. Mas o que fez esta viagem especialmente divertida foi o or\u00e7amento. Quando decidimos rodar a Europa em 2006, a grana estava bem curta e nosso or\u00e7amento s\u00f3 dava para um albergue e um p\u00e3o com queijo. Al\u00e9m de perder mais de dez\u00a0quilos em dois meses, a gente ainda se divertia procurando comida barata em cidades caras, como Genebra. No final, voltamos ao Brasil com o know-how de como viajar sem dinheiro.<\/p>\n<p>Em 2009, voltamos a Europa em uma viagem mais confort\u00e1vel, ficando em hotel e experimentando a gastronomia de cada pa\u00eds. Em 2010, fizemos uma viagem de luxo pelos Estados Unidos em que eu aluguei um Camaro vermelho e viajei mais de 2.000 quil\u00f4metros pela costa leste. Em 2011, fomos para a Austr\u00e1lia e Nova Zel\u00e2ndia e passamos o Ano Novo na Opera House em Sydney.<\/p>\n<p>Em 2013, fiz a viagem mais surpreendente da minha vida. Conhecemos a \u00c1sia. Em cada pa\u00eds que cheg\u00e1vamos, ficava maravilhado. O atmosfera de Bangkok \u00e9 indescrit\u00edvel e o ritmo \u00e9 simplesmente enlouquecedor. Em Cingapura conhecemos a materializa\u00e7\u00e3o do planejamento perfeito. Em Hong Kong, me senti em uma Nova Iorque de 2025. A cada cidade me surpreendia mais. Macau com seus cassinos e Kuala Lumpur com sua mistura de civiliza\u00e7\u00f5es. As lindas praias da Tail\u00e2ndia me obrigaram a rever o conceito de para\u00edso. Mas foi no Vietn\u00e3 que eu descobri um universo paralelo, onde as pessoas ainda vivem uma vida simples e encontram a felicidade nas pequenas coisas.<\/p>\n<p>Entre uma viagem e outra ainda encontramos tempo para voltar aos Estados Unidos e visitar outros pa\u00edses mais pr\u00f3ximos, como a Col\u00f4mbia. A Col\u00f4mbia foi uma surpresa extremamente agrad\u00e1vel. Um pa\u00eds rico, bonito e com um grande potencial tur\u00edstico.<\/p>\n<p>Em 2014 fizemos nossa viagem para a Coreia do Sul e Jap\u00e3o. Nessa viagem, descobrimos porque a Coreia \u00e9 o pa\u00eds que possui o maior n\u00famero de marcas em evid\u00eancia mundialmente. Um pa\u00eds que tem Hyundai, Kia, Samsung, LG e outras marcas merece uma visita. O Jap\u00e3o, por outro lado, \u00e9 o retrato de um civiliza\u00e7\u00e3o que j\u00e1 atingiu o seu \u00e1pice e que agora vive um lento e confort\u00e1vel decl\u00ednio. Ainda sim, a mentalidade japonesa merece um estudo detalhado. Eles s\u00e3o um exemplo de dedica\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e foco (e se assemelham muito aos alem\u00e3es nesses sentido).<\/p>\n<p>Passei o R\u00e9veillon de 2015 no Deserto do Atacama. O Chile \u00e9 um exemplo do potencial da Am\u00e9rica do Sul. Um pa\u00eds que est\u00e1 100 ou 200 anos a frente do Brasil, mesmo sendo o pa\u00eds mais estreito do mundo. Ao atravessar a fronteira com a Bol\u00edvia, tive a oportunidade de conhecer a natureza na sua forma mais bruta. G\u00eaiseres, vulc\u00f5es em atividade e um intermin\u00e1vel deserto de sal. Como ficar indiferente perante a for\u00e7a da natureza? Vivemos em um planeta realmente fant\u00e1stico!<\/p>\n<p>Entre uma viagem a Las Vegas, um jantar em Han\u00f3i, um hotel de sal na Bol\u00edvia e, mais recentemente, uma escalada pela montanha de Huyana Picchu, em Machu Picchu, comecei a pensar sobre o conceito de viagem. Afinal de contas, o que \u00e9 viajar? O que eu aprendi, por exemplo, durante o dia que passei na Bratislava, capital da Eslov\u00e1quia? Ser\u00e1 que eu conhe\u00e7o, de fato, a Eslov\u00e1quia? \u00c9 claro que n\u00e3o.<\/p>\n<p>E nesse sentido, a experi\u00eancia de estar h\u00e1 quase quatro meses em Berlim, me faz pensar na minha primeira visita de cinco dias pela cidade. Quando visitei a capital da Alemanha em 2009, pude conhecer as avenidas amplas, o peso da Hist\u00f3ria, a organiza\u00e7\u00e3o e a efici\u00eancia alem\u00e3. Mas s\u00f3 depois de tr\u00eas meses aqui, entendo o esp\u00edrito avant-garde da cidade e a fixa\u00e7\u00e3o alem\u00e3 pela burocracia. O mundo do alem\u00e3o \u00e9 um quadrado firmemente delimitado por certezas absolutas. E uma dessas certezas \u00e9 de que o alem\u00e3o sabe o que \u00e9 melhor para ele e para a sociedade. Por este motivo, discordar de um alem\u00e3o \u00e9 uma das tarefas mais exaustivas que um ser humano pode experimentar. Eles tem certeza absoluta de tudo e discordam de qualquer opini\u00e3o diferente. Ponto.<\/p>\n<p>Mas o assunto deste post \u00e9 viagem. Vale a pena ficar 5 dias em cada lugar ao longo de um ano e conhecer 70 pa\u00edses ao longo de um ano? Esta resposta eu tenho na ponta da l\u00edngua: n\u00e3o. Muita gente visita 30 ou 40 pa\u00edses ao longo de um ano, o que significa ficar 10 dias em cada lugar. \u00c9 v\u00e1lido? Sim, tudo \u00e9 v\u00e1lido. Mas para conhecer um pa\u00eds de fato, voc\u00ea precisa de mais tempo. Talvez\u00a0seis meses, partindo do princ\u00edpio que voc\u00ea fala o idioma local. Mas o que fazer ent\u00e3o?\u00a0Uma pessoa precisaria de 50 anos para conhecer 100 pa\u00edses nesse ritmo.<\/p>\n<p>Para sair deste dilema insuper\u00e1vel, uma das alternativas \u00e9 dedicar 6 meses para cada regi\u00e3o. Por exemplo, 6 meses no sudeste asi\u00e1tico, 6 meses na Oceania, 6 meses na \u00c1frica, 6 meses na Am\u00e9rica do Sul, 6 meses na Am\u00e9rica do Norte, 6 meses no Oriente M\u00e9dio, 6 meses na \u00c1sia, 6 meses na Europa Ocidental, 6 meses no leste europeu e 6 meses na Am\u00e9rica Central. Neste modelo de viagem, seriam necess\u00e1rios 5 anos para conhecer o mundo. Um pouco mais fact\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas a pergunta que se faz agora \u00e9: por que conhecer o mundo? O que h\u00e1 de t\u00e3o interessante longe de casa? O mundo \u00e9 como um museu vivo. \u00c9 como entrar no Louvre e n\u00e3o ficar com vontade de passar 3 meses l\u00e1 dentro. A vida \u00e9 esse grande passeio e que, nesse momento, nos d\u00e1 a oportunidade de conhecer este planetinha em que nascemos. Quem sabe no futuro n\u00e3o poderemos explorar outros planetas e gal\u00e1xias com a mesma facilidade que viajamos de avi\u00e3o hoje?<\/p>\n<p>Entender esta corrida desesperada da humanidade rumo ao nada \u00e9 uma experi\u00eancia alucinante. Somos 7 bilh\u00f5es de lemmings perseguindo a sobreviv\u00eancia e a perpetua\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie. Seres movidos pelo instinto que se consideram de alguma forma superiores pela capacidade racioc\u00ednio. E quanto mais viajamos menos certezas temos e mais vontade de conhecer novos lugares temos.<\/p>\n<p>A tecnologia facilita muito o mundo do viajante. Servi\u00e7os como o Airbnb permitem que o turista viva na casa de algu\u00e9m por alguns dias e interaja mais com a realidade local. Fazer compras no supermercado, estudar, trabalhar, ver TV, ler o jornal, andar pela rua &#8211; isto constitui uma experi\u00eancia completa em um pa\u00eds. Visitar pontos tur\u00edsticos e tirar fotos \u00e9 como olhar pelo buraco da fechadura. Somos meras testemunhas do que est\u00e1 acontecendo atr\u00e1s daquela porta.<\/p>\n<p>Viajar \u00e9 como fazer uma tatuagem na mente. A cabe\u00e7a fica marcada por aquela experi\u00eancia. \u00c9 como ler e escrever um livro ao mesmo tempo. E aprender um novo idioma, faz com que se descubra uma maneira completamente nova de pensar tamb\u00e9m. Todas as certezas v\u00e3o sumindo e o mundo vai ficando cada vez mais interessante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falar sobre assuntos que n\u00e3o dominamos deveria ser mais dif\u00edcil, teoricamente. Ao passo que assuntos em que temos completo dom\u00ednio deveriam ser mais f\u00e1ceis. Mas a realidade n\u00e3o costuma se dar bem com a teoria. 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