{"id":684,"date":"2015-12-13T20:49:19","date_gmt":"2015-12-13T20:49:19","guid":{"rendered":"http:\/\/tartamudo.antenor.com.br\/?p=684"},"modified":"2015-12-14T20:48:07","modified_gmt":"2015-12-14T20:48:07","slug":"ficcao-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tartamudo.antenor.com.br\/index.php\/2015\/12\/13\/ficcao-3\/","title":{"rendered":"Fic\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Parte 1<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/tartamudo.antenor.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/IMG_4415.png\" rel=\"attachment wp-att-673\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-large wp-image-673\" src=\"http:\/\/tartamudo.antenor.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/IMG_4415-1024x1014.png\" alt=\"IMG_4415.PNG\" width=\"660\" height=\"654\" srcset=\"https:\/\/tartamudo.antenor.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/IMG_4415-1024x1014.png 1024w, https:\/\/tartamudo.antenor.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/IMG_4415-150x150.png 150w, https:\/\/tartamudo.antenor.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/IMG_4415-300x297.png 300w, https:\/\/tartamudo.antenor.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/IMG_4415.png 1242w\" sizes=\"(max-width: 660px) 100vw, 660px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A Kantonstra\u00dfe, como \u00e9 carinhosamente conhecida a Kantstra\u00dfe, \u00e9 a Chinatown de Berlim. A rua tem um charme \u00fanico e acompanha o tra\u00e7ado da Kurf\u00fcrstendamm. Enquanto o Ku&#8217;damm se enfeita com lojas de grife e um monte de armadilhas para turistas, a Kantstr. possui uma combina\u00e7\u00e3o de lojas locais, teatros e restaurantes. Os chineses\u00a0s\u00e3o a maioria, mas n\u00e3o faltam op\u00e7\u00f5es de\u00a0trattorias. Para completar, a pra\u00e7a Savignyplatz deixa esta regi\u00e3o de Charlottenburg ainda mais charmosa, com seus restaurantes com varandas, caf\u00e9s e bistr\u00f4s.<\/p>\n<p>Sentado na pequena mesa ao lado da janela, terminei calmamente meu prato de Wontons de camar\u00e3o.\u00a0O simp\u00e1tico restaurante de comida cantonesa me chamou aten\u00e7\u00e3o desde a primeira vez que passei pela Kantstr. O nome no letreiro\u00a0faz\u00a0os turistas metidos a locais sairem correndo. Quem \u00e9 que vai querer postar\u00a0na rede social que est\u00e1 em um restaurante chamado Good Friends? Ningu\u00e9m. Mas apesar do restaurante n\u00e3o colecionar &#8220;curtidas&#8221; \u00a0na Internet, qualquer incauto como eu que passar na porta toda noite durante dois meses vai notar que o Good Friends vive cheio de chineses. N\u00e3o apenas chineses, mas chineses velhos. E toda noite eu ficava analisando aquela cena. As paredes vermelhas, as mesas grandes e redondas com bandejas rotat\u00f3rias no centro e aquela imensa quantidade de comida que aqueles senhores e senhoras bem vestidos giravam continuamente at\u00e9 finalmente colocar em seus pratos. O primeiro pensamento que veio \u00e0 minha mente foi sobre a qualidade da comida. Tendo em vista a idade avan\u00e7ada dos frequentadores, tudo leva a crer que a comida servida ali n\u00e3o deve fazer muito mal, pelo menos n\u00e3o o suficiente para matar os velhinhos. O segundo pensamento foi sobre as roupas que as pessoas estavam vestindo. Parecia indicar um sinal de respeito pelo restaurante e pela comida. Por \u00faltimo, a decora\u00e7\u00e3o de gosto de duvidoso e o nome sem nenhuma pretens\u00e3o me fez tomar a decis\u00e3o que mudaria o rumo da minha noite e da minha vida.<\/p>\n<p>Depois de percorrer as doze p\u00e1ginas do card\u00e1pio,\u00a0comecei a tentar decifrar qual era a expectativa do gar\u00e7om sobre o meu pedido. O ru\u00eddo no restaurante era estrangeiro e uma m\u00fasica t\u00edpica dava melodia ao cheiro que saia da cozinha. O card\u00e1pio, diplomaticamente escrito em chin\u00eas e alem\u00e3o n\u00e3o parecia indicar uma ordem l\u00f3gica para o pedido. E foi no meio daquela estranha combina\u00e7\u00e3o de l\u00ednguas que eu n\u00e3o entendo muito bem que a express\u00e3o \u4e91\u541e\u00a0me saltou os olhos. Conhecer um idioma \u00e9 mergulhar na alma de um povo. O ideograma para aquela pequena trouxinha cozida suavemente no vapor n\u00e3o poderia ser mais apropriado: Engolir Nuvem. Infelizmente a beleza se perde na tradu\u00e7\u00e3o ao\u00a0se preocupar apenas em capturar o som produzido pelo ideograma e n\u00e3o o seu significado. E a delicadeza da nuvem vira &#8220;Wonton&#8221; em terras germ\u00e2nicas. Chamei o gar\u00e7om para fazer o pedido e por um momento pensei em pedir para Engolir Nuvem de camar\u00e3o, mas com medo de passar vergonha preferi falar simplesmente Garnele Wonton.<\/p>\n<p>N\u00e3o vi a hora passar, mas sabia que a terceira dose de Red Star j\u00e1 estava fazendo o efeito desejado. Naquele estado de obnubila\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia,\u00a0eu pedi a conta enquanto planejava a minha volta para casa. Eram 3 quil\u00f4metros com uma leve brisa de 5\u00baC no rosto. Mesmo sabendo que poderia chegar em 10 minutos de metr\u00f4, n\u00e3o queria correr o risco de me aproximar de uma plataforma naquele estado. A conta chegou em um pratinho negro que parecia ser feito de baquelite, com c\u00f3digos indecifr\u00e1veis, um valor impresso riscado de caneta e um outro valor escrito \u00e0 m\u00e3o. No meio do prato um saquinho branco sem absolutamente nada escrito. Passei a l\u00edngua no c\u00e9u da boca e pensei como seria bom comer um biscoitinho da sorte para mascarar aquele gosto de guarda-chuva que j\u00e1 tomava conta de mim. Coloquei o dinheiro no pratinho de forma a mostrar claramente cada nota, formando um leque colorido de Euros. Abri o biscoito e quebrei ele exatamente ao meio para encontrar o pequeno peda\u00e7o de papel com os dizeres em letras m\u00ednimas: &#8220;Your life is in danger. Say nothing to anyone. You must leave the city immediately and never return. Repeat: say nothing.&#8221;<\/p>\n<p>Parte 2 (1\u00aa vers\u00e3o)<\/p>\n<p>Bebi o \u00faltimo gole de Red Star no fundo do copo, sa\u00ed do restaurante e fui andando pela rua ainda molhada pela chuva que tinha ca\u00eddo mais cedo. Passei por debaixo do viaduto desviando das po\u00e7as que indicavam onde estavam as goteiras. O reflexo das luzes verdes e rosas no teto criavam uma esp\u00e9cie de experi\u00eancia psicod\u00e9lica.<\/p>\n<p>Ignorei a entrada\u00a0para a esta\u00e7\u00e3o de S-Bahn de Savignyplatz e segui em dire\u00e7\u00e3o ao Ku&#8217;damm. Peguei o telefone e rodei toda a agenda procurando algu\u00e9m para ligar. Com certeza, meu telefone estava grampeado e meus cart\u00f5es estavam sendo monitorados. Tinha que usar isto a meu favor.<\/p>\n<p>Andei pelo Ku&#8217;damm at\u00e9 achar um t\u00e1xi simp\u00e1tico, n\u00e3o queria deixar Berlim em um Toyota h\u00edbrido. Quando vi a Mercedes parada na esquina, andei calmamente olhando para os olhos do taxista. Ele me levaria ao meu destino. Literalmente.<\/p>\n<p>Ele arrancou com o carro e ligou o tax\u00edmetro em um ato cont\u00ednuo. Para o Tegel, eu disse, antes que ele perguntasse. E enquanto cruzava aquelas ruas, n\u00e3o resisti e abri o vidro para ouvir o barulho da cidade. A sirene da ambul\u00e2ncia, o assobio do S-Bahn pelos trilhos no alto, o grave do metr\u00f4 nas profundezas e os pneus do t\u00e1xi rodando pelo asfalto molhado.<\/p>\n<p>O Tegel era o aeroporto do setor franc\u00eas. At\u00e9 1990 companhias alem\u00e3s n\u00e3o podiam usar o aeroporto. Ainda assim, ele\u00a0era o principal aeroporto da cidade, servindo de base\u00a0para a Air France, British Airways e a Pan Am. A pista longa permitia que o Caravelle e o 707 pousassem em seguran\u00e7a. Em 1976 o Tegel passou a receber tamb\u00e9m o Concorde na linha CDG-TXL.<\/p>\n<p>Paguei o t\u00e1xi e fui andando pela parte externa do terminal. Entrei pela porta lateral e fui direto no balc\u00e3o da companhia para comprar a passagem. Ningu\u00e9m no balc\u00e3o. Andei para um lado e para o outro at\u00e9 ver aquela placa de &#8220;Vor\u00fcbergehend Geschlossen&#8221;. Fui direto para o check-in e perguntei para um senhor obeso de bochechas vermelhas se o voo\u00a0ainda estava aberto e se poderia comprar a passagem diretamente com ele. Sem tirar os olhos da tela do computador ele disse &#8211; Moment! Na, ja. Digitou no teclado mais um pouco\u00a0e perguntou o nome do passageiro.\u00a0Entreguei o passaporte e o cart\u00e3o e fiquei esperando ele finalizar o processo.<\/p>\n<p>Entrei na sala de embarque e procurei o bar. Um homem olhava fixamente para a TV que passava os destaques do futebol. Sentei no balc\u00e3o, deixando uma cadeira vazia entre mim e ele. Pedi uma bebida e sem tirar os olhos do copo, resmunguei algo sobre o Hertha. O time de Berlim estava em quarto lugar no campeonato alem\u00e3o, o que significava um grande feito para a equipe e um orgulho para a torcida. O homem n\u00e3o esbo\u00e7ou rea\u00e7\u00e3o. Tomei mais um gole e tentei novamente. Nenhuma rea\u00e7\u00e3o. Estava quase indo embora do bar, quando ele se levantou e andou em dire\u00e7\u00e3o ao banheiro. O destino estava do meu lado. Sentei na cadeira que estava vazia e fiquei esperando ele voltar.<\/p>\n<p>O embarque come\u00e7ou pontualmente no hor\u00e1rio programado.\u00a0Entramos no avi\u00e3o e fomos andando at\u00e9 o fundo.<\/p>\n<p>Coloquei o celular no ouvido e comecei uma conversa. &#8211; O que aconteceu? Ela est\u00e1 bem? O que aconteceu? Levaram ela para o hospital? N\u00e3o, eu estou no aeroporto. Vou direto para l\u00e1. Preciso avisar o Gus. Olhei para o meu colega de bar e falei:\u00a0&#8211; Preciso falar com o meu filho, voc\u00ea poderia me emprestar o celular? Acabou a bateria do meu. Ele tirou o telefone do bolso da jaqueta\u00a0e respondeu &#8211; Claro!<\/p>\n<p>O telefone chamava. Al\u00f4, sou eu. Gus, estou no\u00a0Tegel. Sua m\u00e3e sofreu um acidente.\u00a0Estou indo para o hospital. Devolvi o celular ao homem e levantei da poltrona. Agradeci e expliquei que minha mulher tinha sofrido um acidente e que precisava sair do avi\u00e3o e ir para o hospital imediatamente. Fui at\u00e9 o chefe de cabine e expliquei a situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tinha nenhuma bagagem despachada, mostrei meu cart\u00e3o de embarque. O homem pegou o r\u00e1dio, passou o nome e aguardou a confirma\u00e7\u00e3o. Antes mesmo dele falar qualquer coisa, agradeci a compreens\u00e3o e pedi desculpas pelo transtorno. Sa\u00ed do avi\u00e3o e andei pela pista do aeroporto.<\/p>\n<p>Oficialmente, eu ainda estava dentro daquele avi\u00e3o.\u00a0O Sr. Ernst Hoffmann tinha embarcado com o meu cart\u00e3o de embarque e estava a caminho de Copenhagen. Enquanto ele estava no banheiro pela segunda vez, depois de duas cervejas e um papo animado sobre a Bundesliga, consegui trocar nossos cart\u00f5es de embarque. N\u00e3o existe controle de pessoas entre os pa\u00edses integrantes da Comunidade Europeia. Eu estava na sala de embarque novamente e tinha desembarcado com o cart\u00e3o dele.\u00a0Precisava ir para sa\u00edda do desembarque. O Gus deve estar chegando e a noite vai ser longa. Ainda preciso plantar mais uma isca na Dinamarca antes de poder andar em Berlim durante o dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parte 1 A Kantonstra\u00dfe, como \u00e9 carinhosamente conhecida a Kantstra\u00dfe, \u00e9 a Chinatown de Berlim. A rua tem um charme \u00fanico e acompanha o tra\u00e7ado da Kurf\u00fcrstendamm. Enquanto o Ku&#8217;damm se enfeita com lojas de grife e um monte de armadilhas para turistas, a Kantstr. possui uma combina\u00e7\u00e3o de lojas locais, teatros e restaurantes. 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