{"id":609,"date":"2015-11-11T22:04:57","date_gmt":"2015-11-11T22:04:57","guid":{"rendered":"http:\/\/tartamudo.antenor.com.br\/?p=609"},"modified":"2015-11-11T22:11:07","modified_gmt":"2015-11-11T22:11:07","slug":"ficcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tartamudo.antenor.com.br\/index.php\/2015\/11\/11\/ficcao\/","title":{"rendered":"Fic\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Parte 1<\/p>\n<p>A Kantonstra\u00dfe, como \u00e9 carinhosamente conhecida a Kantstra\u00dfe, \u00e9 a Chinatown de Berlim. A rua tem um charme \u00fanico e acompanha o tra\u00e7ado da Kurf\u00fcrstendamm. Enquanto o Ku&#8217;damm se enfeita com lojas de grife e um monte de armadilhas para turistas, a Kantstr. possui uma combina\u00e7\u00e3o de lojas locais, teatros e restaurantes. Os chineses\u00a0s\u00e3o a maioria, mas n\u00e3o faltam op\u00e7\u00f5es de\u00a0trattorias. Para completar, a pra\u00e7a Savignyplatz deixa esta regi\u00e3o de Charlottenburg ainda mais charmosa, com seus restaurantes com varandas, caf\u00e9s e bistr\u00f4s.<\/p>\n<p>Sentado na pequena mesa ao lado da janela, terminei calmamente meu prato de Wontons de camar\u00e3o.\u00a0O simp\u00e1tico restaurante de comida cantonesa me chamou aten\u00e7\u00e3o desde a primeira vez que passei pela Kantstr. O nome no letreiro\u00a0faz\u00a0os turistas metidos a locais sairem correndo. Quem \u00e9 que vai querer postar\u00a0na rede social que est\u00e1 em um restaurante chamado Good Friends? Ningu\u00e9m. Mas apesar do restaurante n\u00e3o colecionar &#8220;curtidas&#8221; \u00a0na Internet, qualquer incauto como eu que passar na porta toda noite durante dois meses vai notar que o Good Friends vive cheio de chineses. N\u00e3o apenas chineses, mas chineses velhos. E toda noite eu ficava analisando aquela cena. As paredes vermelhas, as mesas grandes e redondas com bandejas rotat\u00f3rias no centro e aquela imensa quantidade de comida que aqueles senhores e senhoras bem vestidos giravam continuamente at\u00e9 finalmente colocar em seus pratos. O primeiro pensamento que veio \u00e0 minha mente foi sobre a qualidade da comida. Tendo em vista a idade avan\u00e7ada dos frequentadores, tudo leva a crer que a comida servida ali n\u00e3o deve fazer muito mal, pelo menos n\u00e3o o suficiente para matar os velhinhos. O segundo pensamento foi sobre as roupas que as pessoas estavam vestindo. Parecia indicar um sinal de respeito pelo restaurante e pela comida. Por \u00faltimo, a decora\u00e7\u00e3o de gosto de duvidoso e o nome sem nenhuma pretens\u00e3o me fez tomar a decis\u00e3o que mudaria o rumo da minha noite e da minha vida.<\/p>\n<p>Depois de percorrer as doze p\u00e1ginas do card\u00e1pio,\u00a0comecei a tentar decifrar qual era a expectativa do gar\u00e7om sobre o meu pedido. O ru\u00eddo no restaurante era estrangeiro e uma m\u00fasica t\u00edpica dava melodia ao cheiro que saia da cozinha. O card\u00e1pio, diplomaticamente escrito em chin\u00eas e alem\u00e3o n\u00e3o parecia indicar uma ordem l\u00f3gica para o pedido. E foi no meio daquela estranha combina\u00e7\u00e3o de l\u00ednguas que eu n\u00e3o entendo muito bem que a express\u00e3o \u4e91\u541e\u00a0me saltou os olhos. Conhecer um idioma \u00e9 mergulhar na alma de um povo. O ideograma para aquela pequena trouxinha cozida suavemente no vapor n\u00e3o poderia ser mais apropriado: Engolir Nuvem. Infelizmente a beleza se perde na tradu\u00e7\u00e3o ao\u00a0se preocupar apenas em capturar o som produzido pelo ideograma e n\u00e3o o seu significado. E a delicadeza da nuvem vira &#8220;Wonton&#8221; em terras germ\u00e2nicas. Chamei o gar\u00e7om para fazer o pedido e por um momento pensei em pedir para Engolir Nuvem de camar\u00e3o, mas com medo de passar vergonha preferi falar simplesmente Garnele Wonton.<\/p>\n<p>N\u00e3o vi a hora passar, mas sabia que a terceira dose de Red Star j\u00e1 estava fazendo o efeito desejado. Naquele estado de obnubila\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia,\u00a0eu pedi a conta enquanto planejava a minha volta para casa. Eram 3 quil\u00f4metros com uma leve brisa de 5\u00baC no rosto. Mesmo sabendo que poderia chegar em 10 minutos de metr\u00f4, n\u00e3o queria correr o risco de me aproximar de uma plataforma naquele estado. A conta chegou em um pratinho negro que parecia ser feito de baquelite, com c\u00f3digos indecifr\u00e1veis, um valor impresso riscado de caneta e um outro valor escrito \u00e0 m\u00e3o. No meio do prato um saquinho branco sem absolutamente nada escrito. Passei a l\u00edngua no c\u00e9u da boca e pensei como seria bom comer um biscoitinho da sorte para mascarar aquele gosto de guarda-chuva que j\u00e1 tomava conta de mim. Coloquei o dinheiro no pratinho de forma a mostrar claramente cada nota, formando um leque colorido de Euros. Abri o biscoito e quebrei ele exatamente ao meio para encontrar o pequeno peda\u00e7o de papel com os dizeres em letras m\u00ednimas: &#8220;Your life is in danger. Say nothing to anyone. You must leave the city immediately and never return. Repeat: say nothing.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parte 1 A Kantonstra\u00dfe, como \u00e9 carinhosamente conhecida a Kantstra\u00dfe, \u00e9 a Chinatown de Berlim. A rua tem um charme \u00fanico e acompanha o tra\u00e7ado da Kurf\u00fcrstendamm. Enquanto o Ku&#8217;damm se enfeita com lojas de grife e um monte de armadilhas para turistas, a Kantstr. possui uma combina\u00e7\u00e3o de lojas locais, teatros e restaurantes. 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